quarta-feira, 29 de outubro de 2014

AS CORES

O ódio abraça esses cidadãos desse Brasil verde e amarelo,
Mas é entre o vermelho e o azul que se executa o maldito duelo,
Mas não entre o azul-perdão, focado na amplidão, abolindo a escravidão,
Nem entre o vermelho-paixão, união, energia e excitação,
Mas sim entre o azul dos olhos, jóias e vestidos,
E o vermelho-sangue nas nucas de seus filhos desaparecidos.

Argumento perdido que acerta o seu irmão,

Que cai, com seu corpo desabando-se pelo chão,
O querubim da ignorância e egoísmo corrompe o cidadão,
As palavras sem ideia machucam que nem uma bala,
Mas eis que ele levanta, nenhum arranhão, e tenta se vingar, já preparando o seu canhão.
E todo dia alguém aqui morre, pobre ou preto,
Como se esse fosse nosso decreto, imposto por completo,
Como escrito com suor da testa na dureza do concreto,

E nós achando que nosso trabalho está feito,

Logo após digitarmos dois números numa máquina, perfeito.
Esse é nosso feito, mesmo que estreito e malfeito, meio suspeito,
Mas foda-se, ele foi eleito, agora esperamos e morremos,
Esperando que ele aja com jeito, não há mais jeito.
Pessoas com a divina providência, mas que não luta pra criar sua própria independência,
Estagnados em seu próprio abismo, revolução de canto de cama, por conveniência,
De viver e con-viver com um vilão de terno tecendo suas malditas teias sobre nós,
Suas presas, talvez, por displicência.

G.F.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

AMARELO-NATUREZA

Amando o amarelo,
E só assim para tudo nascer mais belo,
Aprendendo a amar o elo,
Esse nossos corpos cósmicos e físicos,
Este elo que, hoje não restou nada, além de farelos, flagelos.
De frente para esta parede, descascada pelo tempo,
Me vejo, novamente, a pensar no nosso contratempo,
Nesse nosso medíocre passatempo,
De viver, sem viver, semiviver,
Somente uma tentativa, desenfreada, de sobreviver,
Tudo isso fruto de nosso medo, e desejo, de sustentar
Ou perder essa nossa ideologia egoísta,
Evitando, se recusando, cada vez mais, através de decepções variadas, a sustentar a arte de con-viver.
Pois, amar de verdade, de um oceano de esperanças,
Se mutantificou em um deserto de decepções variadas,
Ó, meu jovens irmãos desiludidos, faremos, então, alianças,
Enquanto vocês desaguam-se de medo em si mesmos, eu rio, eu riu,
Enquanto vocês passarão de temor, eu andorinha,
Enquanto vocês marcham, presos a estes solos secos e inférteis, causado por tamanha vileza,
Eu voo, livre, com tamanha subtileza, com destreza, livre de qualquer tristeza,
Pois, singeleza gera natureza.

G.F.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

BURGUESIA

Maldita burguesia, fedorenta com seus perfumes franceses 
Pessoas de narizes empinados, vendo e conhecendo o mundo mas esquecendo de que não são deuses.
Pessoas vis, não-vivos, gastando e amando, a mando de seu dinheiro,
Obrigando, assim, o jovem Pedro a continuar como seu cozinheiro, carpinteiro, leiteiro e porteiro.

Negando a fé na vida,
Para assim pagarem sua dívida,
Fechando o vidro das janelas nos semáforos,
Se negando a ouvir, e sentir, das crianças famintas da rua, os desesperançosos choros,
Sendo assim, desumanizando o seu lado humano,
Através de uma tortura, uma humanizada ditadura,
Para metamorfosear-se em um defunto americano.

Negando assim a alforria aos desalforriados,
Continuando a desferir golpes aos já feridos,
Para mantê-los, deles mesmos, escravos,
Continuando um ciclo de exemplo que eles mantem decididos.

Com esses meus olhos castanho-perdão
Com esses meus móveis vermelho carmesim,
Posso até morar com esta equivocada burguesia,
Mas, peço em oração que a burguesia nunca more em mim.

G.F.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O SONHO

E é pela defesa das cores erradas que é salvo o dia,
E este é perdido pelas coisas que não se realizam por excesso de mediocridade.
E o genérico homem contempla o espelho de seu fôlego e índole,
E resolve procurar por sua ideologia filantrópica, sido antes soterrada sob seu orgulho e egocentrismo.

Ele cava, esburaca, até desobstruir o gigante e escuro abismo de seu ser,

Para, assim, mergulhar, e se perder, no sonho de seu antagonismo.
Se voltando para o outro, para que, juntos, possam amadurecer.

Este homem banal desnuda-se de sua arrogância para, só então, penetrar e sentir o coração e a essência do sonho.

Vendo, de seus próprios lábios, fugir a vaidade, de suas ideias, de suas autenticidades tão clichês,
Este tenta se desprender, e se prender, a este encantamento medonho.

Mas, de tão encantado, ele procura arrastar, resgatar e preservar este sonho,

Que foi, antes, tão desprezado.
No entanto, perdurante este seu ato de altruísmo e redenção,
Ele é surpreendido por cassetetes, armas, gritos e coerção.
E, banhado em seu sangue e morte, fraca e dolorosamente, ele se retira de lá, ainda com o cheiro da liberdade e do sonho à se propagar.

No entanto, eis que é abandonado um sêmen, que fertilizou esse seu libertário devaneio,

Que se esparramou e difundiu-se em um outro fútil ser-humano,
Gerando, assim, mesmo com o seu fecundador alheio,
A continuidade de seu ideal arcano.
Que continua por toda a eternidade, como sua recordação,
Morrendo e vivendo, na tentativa de realizar-se o irreal.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

POESIA SEM PUDOR

E nesta nossa transa noturna silenciosa, que é para nem Deus ouvir. Esse meu cabelo despenteado, que é a única prova desse nosso ato de amor e tesão. Me vejo fitando os complexos cachos do cabelo da boceta da menina. E, pelo reflexo do espelho eu contemplo, e aproveito, o meu, e o seu gozo.
A calada madrugada se transforma em uma sala de estar, para este nosso barato hipnótico. E, como lembrança, eu faço esta poesia. Safada, sem pudor, mas poesia. Pois, o sexo, nada mais é do que arte. E a arte não se acumula, a arte não se perde, a arte se transforma.

domingo, 5 de outubro de 2014

MISE-EN-SCÈNE

 Um salve para a verdadeira poesia. Um reflexo de nossas ações e comoções na ponta do lápis.
 Pois, para mim, esta é a verdadeira poesia: a homogeneização entre a ideia e a ação, entre emoção e a razão.
 E que a alegria e o tempo me gerem o ânimo necessário para que eu possa subsidiar esta podridão e caos que chamamos de mundo.
 E que, ao mesmo tempo, essa tristeza deteriorada em meu peito , movida por esta fluída, ingênua e errônea máscara de ator me relembre de que sou mortal, dramático, dionisíaco e torto.
 Para que, mesmo com essa minha encenação e gozo perante a vida, eu não consiga tirar, de mim mesmo, esta minha paixão por este umbigo do universo.
 Pois, mesmo com toda a alegria do mundo, a tristeza, esta maldita tristeza, não deixa de ser imortal.

G.F.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

POESIA

Deixe-me fugir, andar, berrar,
Deixe-me, no seu ódio, eu me achar,
E voltar para outro lugar, talvez o Canadá,
Para que, talvez, eu, com todo o meu niilismo, possa me deixar te amar.



Pois eu ainda torço, deslocando-me para me encontrar,
Talvez em outra vida tento te procurar, em algum bar ou avenida,
Torcendo, um pelo outro, nessa tristeza suicida,
Para que eu possa morrer e então renascer,
Para, da minha doença, talvez me curar.


Finalmente entendi o significado da poesia,
Minha paixão premeditada e tão utópica,
Tão impossível para mim, com toda a maestria
Dos poetas, com as suas alegorias, alegrias e aposentadorias.
Não sei amar, cuidar, demonstrar, me importar.
Pois sou daqueles que preferem rir para não chorar.



G.F.

domingo, 28 de setembro de 2014

O SENTINELA

   Bem o conheço, mas mal o entendo. Sempre nesses espelhos de restaurantes, retrovisores de carros e janelas dos ônibus, ao acaso, nos encontramos e encaramos um ao outro. Meu detestável sentinela.
  Fixo aqueles olhos imparciais, turvos e imprevisíveis. Ele me julga, eu sei que ele o-faz.
  Mas quem é você para censurar-me, aparição? O que tem minhas ações, minha autodestruição e meus cigarros com o teu afiado olhar oblíquo?
  Não nos falamos, eu aceno e ele me responde com o mesmo aceno. Vou embora. Atravesso a rua. Ouço a buzina e os gritos. Sinto a dor. De relance, olho o meu reflexo ensanguentado nos cacos de vidro no chão. Ele está rindo.

G.F.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A MORTE ESQUECEU-SE DE MIM

Eis que não sou eu escrevendo, estou bêbado, 
É apenas essa minha gélida e amargurada alma que,
Através desses meus trêmulos dedos ossudos e debilitados,
Dança a melodia da minha melancolia e mágoa.

Uma alma que, de tanto ser aprendiz da vida,

Da vida, do cosmos e do amor, virou professor,
Sem uma melíflua expectativa para o futuro,
Enquanto, do passado tento me livrar, com o meu dispersor.

Uma alma abarrotada de décadas de desilusões e moléstias,

Do soldado, que se despede de sua donzela, aos prantos,
Do pai, que pragueja a perda do filho, acumulando condolências.
Da percepção da ida de todos os queridos, sem despedidas, só fragmentos.

E, camarada ao imenso vazio em meu peito, meu corpo vai se moldando,

Passando da minha lampra e impulsiva juventude a minha enrugada velhice.
De saudades que possuo dos meus inimigos e amores,
Espero a morte que não vem, respirando e morrendo, mas não morro.
Pois a morte esqueceu-se de mim.

G.F.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

MONOTONIA, NÃO PARA MIM

  Porque será que a vida é assim? Buscamos sempre a euforia e o que é de nosso agrado nessa vida tão curta. A dor e o sofrimento vêm sempre de mãos dadas com essa tal alegria, mas não conseguimos nos adaptar. Não sei, mas, sinceramente, não consigo admitir essa perda de tempo.
  Acontece que fomos - e somos - criados para procurarmos e vivermos sempre por aquela alegria tão artificial de capas de revistas e telas de televisão. Deixamo-nos levar por essa falsa ideia de beatitude a qual somos impostos.
  O perigo e a grandeza nos assustam e decidimos procurar por algo que nos dê segurança. Não sabemos o que procuramos e por isso nunca encontramos. Procuramos a felicidade, mas que sempre vem entrelaçada com a desesperança, mas simplesmente não entendemos isso e sempre tentamos separá-las, desmantelá-las, mas nunca conseguiremos, não há jeito.
  Quando buscamos somente uma parte do "yin-yang" nos encarceramos, nos proibimos de poder contemplar toda sua totalidade e formosura. O mundo é um lugar esperando para ser explorado, mas não poderemos explorá-lo com tanto medo da vida - até mais que o da morte-.
  Viver a vida atrás das alegrias é prazeroso, mas deficiente. No entanto, a vida como um todo, completa, com toda a sua atrapalhação e bagunça é perfeita para mim.
  E eu, como um apreciador e aprendiz da vida em toda sua totalidade me recuso a amar e aprender pela metade. Não consigo me enquadrar nesse padrão. Acho isso careta, tedioso. A perfeição, para mim, é um porre, é tediosa demais. Tenho ânsia de viver, de viver intensa e completamente e de ver  o mundo fora de minha pequena janela. Nada muito perfeito me agrada. Talvez eu seja só mais um demente, imprudente e desajuizado, mas eu quero sofrer, eu quero aprender. Eu quero sentir.
  Talvez, quem sabe, eu devesse meramente aproveitar. Afinal, tanta coisa deliciosa, que não percebemos, brota da desgraça e não aproveitar seria um desperdício de um grande tempo e espaço vazio, egoísta, um desperdício do acaso que as estrelas arranjaram pra nós.
  Por isso, aqui estou eu, sofrendo em mais uma noite desabitada, para dizer: Vamos nos jogar de cabeça, vamos sofrer, sofrer por um coração partido, sofrer por uma perda, por um descaminho da felicidade, sofrer pela angústia de achar que nunca chegará lá, sofrer pela falta e o excesso de amigos, sofrer pela solidão. Sofrer, mas sofrer aproveitando cada segundo e adorando cada novo amadurecimento que surge das nossas desgraças, aprendendo que nem crianças, com olhos esbugalhados de curiosidade, sem se sucumbir à monotonia, ao perfeccionismo ou a qualquer coisa que nos faça completamente bem. Para que, assim, tenhamos mais capacidade e competência em viver nesse mundo mais perigoso que a morte, contudo mais belo que o nascer e o pôr do sol.

G.F.