domingo, 28 de setembro de 2014

O SENTINELA

   Bem o conheço, mas mal o entendo. Sempre nesses espelhos de restaurantes, retrovisores de carros e janelas dos ônibus, ao acaso, nos encontramos e encaramos um ao outro. Meu detestável sentinela.
  Fixo aqueles olhos imparciais, turvos e imprevisíveis. Ele me julga, eu sei que ele o-faz.
  Mas quem é você para censurar-me, aparição? O que tem minhas ações, minha autodestruição e meus cigarros com o teu afiado olhar oblíquo?
  Não nos falamos, eu aceno e ele me responde com o mesmo aceno. Vou embora. Atravesso a rua. Ouço a buzina e os gritos. Sinto a dor. De relance, olho o meu reflexo ensanguentado nos cacos de vidro no chão. Ele está rindo.

G.F.

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