terça-feira, 1 de dezembro de 2015

SECAMARGURA

Oh, meu Deus,
Será que o senhor, conosco,
Se arretou?!
Fazendo, assim,
Todas as nuvens parar
De nos dar toda a chuva que, nelas, há
Meu Deus, se eu não rezei direito
Ou pedi de mal jeito,
Peço que o Senhor me perdoe,
Acho que a culpa foi
Dessa minha pobre pessoa,
Que, de tão desesperado,
Não soube fazer uma oração.
Meu Deus, me desculpe
Eu pedir a toda hora,
Com o coração cheio de mágoa,
Pra o sol, de fininho, se arretirar,
Pra cair um tiquinho de água nessa imensidão,
Pra ver se nasce um alface no chão.
Senhor, me desculpe
Eu implorar para chegar o inverno,
Desculpe pedir para acabar com esse inferno
Que, dentro de mim,
Vejo se materializar,
Na minha Paramirim.
Nessa minha vida,
Que, parecida com cebola cortada,
Já me fez muito chorar,
Vira espinho de Mandacaru
Que adora me arranhar.
Mas que, mesmo com tanta
Secamargura,
Só me faz, por essa minha terrinha,
À cada dia, me apaixonar.
Pois, só deixo minha Paramirim No último pau-de-arara.
G.F.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

OXÓSSI

Morei meus primeiros 2 anos na Av. Sete,
Depois disso fui viver em Nazaré,
Passei minha infância convivendo com minha tia,
Que é uma religiosa fervorosa,
E achava que meu choro, quando eu nasci,
Era porque eu me afastava de Jeová,
Mas, na real, era de saudade da minha
Pré-reecarnacional casa.

Ia nos cultos com ela
E ouvia falar de um Deus que, pra mim,
reclamava
Mais do que ajudava,
Mas, onde já se viu
Um pai punir um filho
Que ainda não sabe nada da vida?!
Um Deus branco, de olhos azuis,
Pai de todos nós, negros?!
Achei estranho...
Não gostei daquele Deus

Sempre gostei do amor,
Em toda sua forma
Torta,
Sem estrebeiras,
Nem porta,
E não entendia porque
Aquele pai deixava meus irmãos ali,
Na miséria,
Ressaltando, somente, seus atos "impuros",
Como se fossem bactérias.
Já não gostava daquele "Único" Deus...

Até que, um dia que eu saía do culto,
Com toda minha rebeldia dos 10 anos,
Já de saco cheio de tudo aquilo,
Me deparo com um negro alto e forte
E que me perguntou porque eu tava ali
Se eu parecia tão fulo da vida,
"É o único jeito, né não?" Respondi.
Ele me sorriu de volta e me disse
"Não, meu filho, você é livre pra aprender
E viver. Siga seu caminho".

Ano retrasado achei um livro
Falando sobre a cultura africana
E eu vi a foto daquele negro lindo lá,
Só que tava todo enfeitado,
E foi quando eu, finalmente, descobri seu nome:

Se chamava Oxóssi

G.F.

A VOLTA DO ESPÍRITO DOS CAPITÃES DA AREIA

Essa situação se ocorreu no inicio da noite do último sábado, mas que só consegui transferir para o meu teclado hoje:

Minha meta do último sábado era finalizar a semana (e iniciar o final de semana) com uma cerva bem gelada pra esquecer a semana, que tinha sido cheia de "nada's", e fui me encontrar com uns amigos em um bar localizado no Porto da Barra, em Salvador.
Ao chegar no Porto, já dei de cara com uma quantidade razoável de pessoas no local, assistindo à um show musical gringo em um dos bares. Pensei em comprar um piriguete à caminho do bar.
Afinal, a noite tinha que começar.
Fui para a fila do depósito de bebidas, esperei, pedi, paguei e recebi a cerveja.
Quando penso que não, meus olhos se deparam com a figura de um menino de, aparentemente, 7 pra 9 anos, negro, com sua roupa suja, em farrapos e seu cabelo despenteado batendo, chutando e pulando. Lutando contra o vento.
Era capoeira, completamente notável e natural, não dei importância, já que vários garotos que andam por aquelas áreas jogam capoeira e treinam por lá. Bom, segui caminho para o bar, que era na direção do garoto que dava piruetas pelo ar.
Quando estava, praticamente, do lado dele, ele exclama:
"Tome isso!! Eu sou Pedro Bala!!"
Tomei um susto!
"Ele disse Pedro Bala?" Pensei comigo mesmo.
Como já me localizava do lado daquele capoeirista mirim, ativei minha cara de pau e perguntei:
"Você sabe quem é Pedro Bala? Como conheceu?" Perguntei.
"Oxe, claro que sei. Era o líder dos Capitães da Areia. Foi um amigo meu que falou, ele disse que eles eram meninos pretos e moradores de rua que nem eu."
Pude ver nos olhos mirrados daquele baixinho, um brilho de orgulho e felicidade por falar do seu, aparente, ídolo.
"Mas, eles já morreram. Tá vendo aquelas estrelas grandonas que tão brilhando lá no céu?" Me perguntou, apontando seus dedos sujos para o céu "São eles!! E sabe porque elas só aparecem de noite?! Para proteger os meninos que moram na rua das policia e de outras pessoas ruins. Eu me sinto bem melhor à noite, porque eu sei que eles estão me olhando e me protegendo das coisas ruins." Continuou, empolgado.
"Que coisas ruins?" Perguntei.
"Dos policiais que me batem quando eu ando na rua ou quando tô dormindo em algum lugar, e dos caras que vendem drogas e matam gente, e ainda tem uma gente ruim que mata quem mora na rua só porque tá com raiva de nós."
"E o que você acha dos Capitães?"
"Nunca gostei de morar na rua, nem de não ter dinheiro pra comprar comida ou brinquedo pra mim. Mas, depois que meu amigo me contou deles eu fiquei feliz de ser igual a eles. SOU MORADOR DE RUA TAMBÉM!!!" Afirmou ele, com um sorriso largo no rosto e um brilho na alma.
"E pode lembrar disso: ainda vou ficar famoso que nem eles, virar artista, vou jogar capoeira pelo mundo todo e ficar rico. Pode lembrar. Tchau, moço." Disse ele, alegre, mas já indo embora, respondendo ao chamado da sua, aparentemente, mãe.
"Tchau!!" Respondi, pensando à respeito daquilo. Nunca fui muito fã dos escritos de Jorge Amado, embora eu ame o foco e a importância que deu e mostrou do resto miserável da sociedade baiana.
Mas, aquilo era especial. Era a representatividade de um menino de rua e seu orgulho de se aceitar como é, por mais que os desafios o-desanimem.
E eu tive a certeza que aquele menino chegará aos seus sonhos.
Pude presenciar a volta do "espírito dos Capitães da Areia".
Pude, finalmente, entender, e sentir, seu espírito, Jorge...
E entendi:
A REPRESENTATIVIDADE É IMPORTANTE, SIM!!!

G.F.

MORR(VIV)ER

Se eu morrer,
Não chore, não.
É só minha última poesia
Nessa minha vida
Encarnada.

Assim que Obaluaê me levar,
Pra junto do mangue irei,
Deixando-me arrastar
Para a próxima etapa do
Cosmos e do
Aiyê.

Mas, sorria!
Sorria, porque eu não vivi
No infortunio da eterna tristeza,
Movida pelo apego.
E dela nada mais espero
Quando for embora,
Para as profundezas.
Pois,
Só chora com a morte
Quem morreu sem ter vivido.
E eu tento viver, a cada dia,
Mais atrevido.

Se sentires saudade de mim,
Olhes para cima e
Lembre-se:
Estarei sempre te olhando
Da constelação
De Gêmeos.

Pois, ao fechar eternamente
Meus olhos,
Não será nem no céu,
Nem no inferno,
É no ar que irei morar.
Junto com Tempo e Oxóssi,
Fazendo do mundo,
Minha morada.

Pois, no final, estarei dividindo um cigarro
Com meus cumpadres: São Jorge e
Zé Pelintra;
Bebendo da cachaça do Dragão;
Fazendo uma festa no Òrun;
E dando risada na lua.

G.F.

O ESCRITOR

Escrever é a ação
De tesão
Do poeta.

Escrevemos pra gozar da vida,
Gozar a poesia vinda
E sua ida.
Gozar do gozo
Literário,
Humano,
Temporário.
Escrevemos pra mostrar
O que nos cerca,
Para cercar
O que nos resta ser
Para ver nosso alvorecer.

Contanto, não escrevo mais
Só por prazer.
Falta força.
A mão já cansa de escrever
com tanta coisa ruim
Na rua, na praia, no cinema
E no botequim.
Pessoas movidas pelo conceito
De que a opressão
E o preconceito
São as únicas respostas á se darem.
Mutilando a esperança
Do resto de nossas
Decepções
Variadas.

Porém, a poesia sempre me lembra
Que nós, e somente nós,
Somos os representantes
De nossos sonhos ambulantes.
Dentro dessa nossa vida
Amante.

Então avante!!

E é quando eu levanto a cabeça,
E grito um Viva!!
Aos Sonhadores das
Grandes causas.
Aos Amadores das grandes
Pequenas asas.
E aos escritores dos pequenos
traumas.

Pois, esse é o gozo,
E a dor,
De ser escritor.

G.F.

A QUEBRA

A poesia surge da quebra
E a quebra, da poesia.

Pois, quando o mundo
É monarquia,
A poesia vira
Anarquia.

Quando o mundo
É guerra,
A poesia nada mais é
Do que amor,

E quando o mundo
É paz,
A poesia se torna
Dor.

Pois, quando o mundo
Se vê minimalista,
A poesia se torna
Excêntrica e
Exagerada,
Em sua forma mais pirada
De fuga do comodismo.

Porque nada está bom o bastante
Para a poesia.

Pois, poesia é a revolução
No seu grau mais poético
(Im)possível.

G.F.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

AMO.R

Palavras para o Amor que sinto?
Não existem.

Se formam.

Palavras pra escrever
O descrever da sensação
de um sol no rosto
de um rosto no outro
de um outro com nós
de nós que formam um laço
de um laço que nos une
da união de dois corações
Que formam um abraço.

Abraçando,
se abra-só.

Sozinho,
Nu,
Se completando,
cru.
Como o amor.

Afinal, poesia não é sentir,
Poesia é amar.

Pois, o amor não quer adeptos,
não quer companheiros.

O amor
quer amantes.

G.F.

O TEMPO E A POESIA

São com as palavras,
Encharcadas de letras,
Que o poema nasce
Mamando das tetas
Do poeta.

Pois, a poesia nada mais é
Do que o jardim de infância
Da literatura.
Onde podemos brincar, pular corda,
E jogar
Com as palavras em abundância.
Transformando qualquer poeta
Em criança.

Contudo, a todos eu digo que:
Assim como a infância,
Eu e a poesia nada mais somos
Do que passado.
Pois, o poema pertence, somente, a poesia,
E a poesia pertence ao tempo
Já acabado.
Jamais ao futuro ou à um tempo
Indeterminado.
Afinal, é somente dentro do passado
Onde nós conseguimos fazer, do presente,
Um presente dado.

E é nos olhando pelo retrovisor,
Como tais,
É que eu e a poesia,
Graças a vocês,
Nos tornamos imortais.

G.F.

ETERNA SOBERANA

Embora haja muito ainda,
O tempo passa.
E a ideia que me beija e me abraça,
Mas que também,
Me bate e me amordaça,
Toma conta de meus sonhos.

Minha eterna soberana,
Pulsante são os mistérios do teus olhos
Que pulsam, impulsionando,
O meu impulsivo coração.
Movido, apenas, pela ilusão
De que seremos um do outro
Enquanto nos temos,
Enquanto tememos,
Enquanto podemos.

G.F.

terça-feira, 30 de junho de 2015

CARTA PARA VILMA

"Vilma, se cada coisa bonita que nós falássemos um para o outro fossem escritas, todos nós escreveríamos grandes livros como este. 
Só acho que te amo, pra sempre.
Considere isso como meu poema para você.
Carlos
30.12.81"

Foi essa a frase que encontrei na folha de dedicatória do livro de poemas "Elegia - Pablo Neruda" que adquiri hoje de um sebo.

Quando eu li aquela antiga e singela declaração foi, por um segundo, como se eu pudesse me sentir em pleno 1981, recebendo, ou entregando, aquela mensagem escondida. Pude sentir uma amostra grátis dos lampejos de emoções que devem ter passado pelo corpo dos envolvidos. Foi quando eu realmente me toquei na incrível profundeza da história por trás desse conjunto de letras em algumas folhas amareladas de papel. 
Não passam de cartas de amor desconhecidas e antigas...

Acabei sendo completamente tomado pelos disparos de pensamentos em minha mente avoada, como:
"O que essa Vilma sentiu na hora?"
"Será que eles ficaram juntos?"
"Sobre que coisas bonitas eles falavam?"
"Será que os envolvidos ainda estão vivos e se lembram desse episódio?"

Esse não é o primeiro - e espero que não seja o último - livro usado que consigo e longe de ser o primeiro rabiscado, ou com mensagens e frases escritas, em suas folhas. Sem falar que, mesmo ingênua e inconscientemente, eu sempre tive a percepção de que um sebo nada mais é do que uma biblioteca de histórias -  mas não as que os livros contam, e sim as que os livros acompanham -.
Não, são mais do que cartas. 
São um dos maravilhosos pedaços de alguma vida alheia. E eu segurava uma, de 1981, em minhas mãos.
E como isso me encantava...

Cartas de amor, cartas de saudade e, até mesmo, cartas de desculpas. Sentimentos e pedaços de vida anônimos expostos e repassados para o próximo. O mesmo amor que vemos brilhar nos olhos de todas as pessoas, cotidianamente, e não notamos. As histórias por trás das histórias e as histórias por trás das coisas. A poesia do mistério que é ser um humano dotado de emoções.
Como é linda, a poesia da vida.

Pois, poesia - arte - primitiva, sensorial, antes de tudo, é gesto.
E com aquele gesto de amor antigo, que explanava para mim e para os céus sua verdade, eu senti que, no final das contas, não importa o que se aconteceu entre Carlos e Vilma, apenas o que se gerou: A pura e embriagante poesia.
Somente poesia.

G.F.

CAIS

Me sinto, e ajo,
Como um desgarrado,
Igual à fumaça que foge da
Brasa e do calor
Do cigarro.

Queria eu pelo menos uma vez,
Fazendo de você minha ancora,
Ancorar
No primeiro mar de
Segurança
Que eu achar,
Mesmo eu sabendo que
Desse cais,
Logo, logo
Irei zarpar.

G.F.

SELVA DE PEDRA

A rude e rudimentar
Imensidão
Dessa selva de pedra que
Endurece o coração.
Luzes acesas nesse
Labirinto de muros,
Apenas refletindo a
Cintilante escuridão dos mudos
De alma.

Nessa selva de pedra
Que endurece o coração,
Que de vermelho
Se torna azul,
Se camuflando aos
Pixos,
Tentando sobreviver
Como bicho,
E que, disso,
Vira cinza.

Cinzas.

G.F.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

UMA REZA À CACHOEIRA

Rodeado de axé,
Onde se dança tomado
Pelo samba e tambores,
Que, dessa pequena cidade
Do exagero,
São sustentadores.
Movido pela energia
Do Preto Velho,
Vou seguindo a nostalgia
Das luzes e da fumaça
Dessa cidade mística
De raça.

Entrando na Rosarinho,
Para sair no Kfûa,
E, ao sabor do Rock Pinto,
Vou andando na enfeitada rua;
Procurando explorar a gruta azul,
Apenas para dançar, com o pai do sertanejo,
Ao som do reggae;
Ficando Doidão Bahia,
Apenas para acabar bêbado
Aos pés de Paulo Lomba,
Na vinte e cinco.

Peço Agô para gritar
Saravá
Aos terreiros,
E para, desse prazer, aproveitar
O seu saboreio.

Uma reza à Omulu,
Atotô Obaluaê,
Uma reza ao rio de maré,
Sem nenhuma beira.
Uma reza à Cachoeira.

G.F.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

A dor sutil e alucinante do vazio do peito, como aquela sensação frívola que nós, indulgentemente, sentimos quando, ao apoiarmos no corrimão, descemos por uma escada molhada, temendo o vazio, de cair, de se esborrachar.
Sinto-me como naqueles sonhos em que acordamos de madrugada sobressaltados por acharmos que estávamos em plena queda livre. Me sinto numa permanente queda nesse equívoco e misterioso vazio. O Completo vazio.
Ôh, maldito vazio do peito, queria eu, poder transformá-lo em um pote e enchê-lo de água,
de amor, de raiva ou, até mesmo, de mágoa, e bebê-lo todo de uma vez.
Mas não.
Não, ele é apenas mais um - enorme - vazio, dentro desse vazio da minha subsistência.
"Como renovar sem antes, primeiro, virar cinzas?"
Essa frase entranhou-se em meus pensamentos. Mas, como virar cinzas se nem me queimar eu consigo?
Observo o sol esgueirar-se para de trás do mar.
Ah, se eu pudesse simplesmente fugir, como o sol...

G.F.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

"- Você não entende de amizade nem de inimizade, Harry. É amigo de todos; quer dizer: todos lhe são indiferentes."
-  Oscar Wilde: O retrato de Dorian Gray

segunda-feira, 18 de maio de 2015

SAUDADE

Preenchido pela nostalgia dos momentos ocorridos.
Sinto a saudade pelo que podia ter vivido.
Com os dias escuros sob a luz do sol,
E a noite clara, por eu te sentir mais perto
De mim.
Na poeira, no cheiro de incenso
E no livro tenso.
A minha inspiração de loucura,
O cigano que me enciganou,
Que, do meu carma, me aliviou,
Livre por esse país da bossa e do samba.
A pessoa que, a tudo, me mostrou
E que, até hoje, me chama.

A saudade me devora
E me mastiga,
Me consome
E me instiga
A te procurar.
A saudade prevalece,
Meu eterno, mestre.

G.F.

CIDADE DOS HOMENS

"Se você morrer, o seu filho vai ser que nem a gente, cara. Vai crescer sem pai, sem família, sem amor. É isso que você quer?"
E isso foi a última coisa que eu consegui lhe dizer enquanto olhava em seus olhos, ainda pulsando vida.
Apenas para, depois, vê-lo correr para o som dos pipocos dos tiros e dos gritos de agonia dos outros boys que fecharam com o dono do morro para invadirem a quebrada.
A última coisa que eu consegui lhe dizer enquanto o coração ainda batia, sonoro. O dele, e o meu. Pois, quando ele - meu amigo, meu irmão, meu primo - morreu, meu coração também parou de bater. 
Afinal, essa é a cidade do ódio. Nada mais, nada menos do que a cidade dos homens.
E saí, corri, peguei o moleque, filho dele, e o carreguei no colo. Fugi da vida que conhecia, do lugar de onde cresci, das pessoas que amava. Fui pra rua, batalhar por mim, pelo garoto e por ele que não viveu para ver o garoto crescer, nem para vê-lo jogar bola no campinho de barro.
De corpo fechado e coração esfarelado, vivo por nós.

G.F.

terça-feira, 5 de maio de 2015

A MELODIA DO SILÊNCIO

Quando fecho os olhos,
Presto atenção aos barulhos da noite
E ao barulho dos sonos dos outros,
Que me toca, na minha poesia ingerida.
Essa poesia que dança, distraidamente,
Esperando, apenas, ser contemplada.
Apenas seguindo a doce melodia lenta
Do piano que, se prestar atenção,
Conseguimos ouvir no vazio do silêncio.
Como uma fotografia,
Registrando tudo o que nos cerca,
Em nossa própria imensidão.
E é quando eu fecho os olhos
Que vem o silêncio da minha mente calma,
E consigo ver essa tal poesia invisível.
Uma doce melodia-silêncio, de alma.

A doce melodia do silêncio no entrelaçar dos
Olhares entre nós e uma senhora
Na fila do caixa da padaria.
A melodia do silêncio que, sensivelmente, me cala.
Do silêncio após eu acender meu cigarro,
Inalando fumaça,
Para não deixar escapar cotidianas desgraças.

Como, quando a melancolia me sequestra nos bares,
E entro em meus devaneios olhando pra a mesa ao lado,
E tentando imaginar o que os outros estão sentindo aos ares.
Onde, dentro de seus silêncios, estão suas raivas
E seus amores,
Suas decepções e seus vetores.
Do silêncio logo após um beijo apaixonado,
Da poesia lenta, da falta de barulho, um segundo antes
Do beijo entre o sol e o mar,
Banhado em escuridão e luz,
Na hora do sol se deitar.
O abraçar da noite.
Apenas ouvindo essa doce
Melodia do silêncio.

G.F.

INFERNO

E eu, como uma criança, com um tremendo espanto,
Inocentemente, olhando pra um escuro canto,
Que, de tão escuro, até a luz da vida apaga,
E onde a glória e a potência da miséria,
A cabeça da discórdia, afaga.
Onde vejo pessoas à vender esperança e Jesus,
Dizendo que, foi por nossa poupança, cartão de crédito e cifrão,
Que ele sangrou e morreu na cruz.
Para quê, assim como Fausto, possam vender sua alma ao diabo,
Passando, assim, pela cabeça daquele boy malcriado,
O triste veneno que já foi enraizado.
Esperando poder fazê-lo ver que, enquanto uns comem,
Outros não podem comprar uma cabeça de alho.
E fazê-lo desacreditar de que, em prol da sociedade, temos a gourmetização,
Onde se paga o salário de um mês por um pedaço de pão,
Mas que no final dizem que, é a arma na mão da fome
Que necessita de nossa atenção.

Como uma criança,
Embaixo do lençol, assustado,
Vendo esse mundo, de branco, se tornar acinzentado.
Mas, sabendo que trazemos, no peito, a indignação do anjo rebelado,
E que essa nossa revolta vai ser, na futuro, por um "Bom dia",
Um "Eu te amo" e um "Obrigado".
Para que, finalmente, possamos descartar essa nossa
Característica de inveja, dor e opressão,
Lembrando que, em cada ser humano há, também,
Batendo por vós, um coração.
E para que, juntos, possamos tornar
O pranto em riso
E transformar esse nosso inferno
Em paraíso.

G.F.

sábado, 25 de abril de 2015

TERRA DE NINGUÉM

Do nosso amor amador, 
Eu como do fruto, meu amor.
Vivendo desse amor que fala que pode,
Mas, que depois me morde
Pelas costas, sem querer.
Dentro do meu, e do teu, desejo,
Que tem um lado solidão
E outro lado prazer.

Do nosso fruto amador,
Eu como do nosso amor, minha dor.
Porque esses nossos encontros ao acaso,
Não passam da coincidência brincando com nós,
Então que possamos aproveitar isso a sós,
Penetrando em nosso susurro de auto-falante
E silêncios de liquedificador.
Vivendo da ansiedade de te ver,
Pela pirraça de te ter,
Sem poder.

Contudo, nos amamos e nos soltamos,
Procurando, um ao outro, provocar.
Presos nesse nosso laço feito de pêlo,
Para não sufocar.
Porque do nosso amor-chama,
Que queima e vira, depois, fumaça,
Nosso amor, a janela do carro, embaça
Mas que, infelizmente, depois passa.
Afinal, o espaço é o tempo morto de alguém,
E é no nosso espaço que está o nosso amor.
Numa terra de ninguém.

G.F.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

MINHA MISSÃO

Eu Nasci na Bahia, em Salvador,
E, enquanto eu, na infância, fui cordeiro,
Com meu coração preenchido por inteiro
Com todas as formas de dor e amor,
Acabei zarpando fora, para o mundo, sem freio,
Abençoado por Oxóssi, Iemanjá, Iansã e Xangô.

Seguia o que me mandavam fazer,
Mas, jogado ao mundo com esse sangue,
Escorrendo e pingando à dendê,
Logo percebi que tinha algo errado, irmão,
Até que, finalmente, percebi nos livros, e na poesia,
De que eu nasci para estar na contra-mão.
E de que era o tédio, que, para a minha loucura, 
É quem dava o fundamental empurrão.

Tudo isso apenas para eu abraçar
Minha nobre e primordial missão:
O movimento, a liberdade,
O amor e a indignação.

G.F.

REVOLUÇÃO

E, desafio o que foi imposto,
E ataco, na mais sutil mansidão,
Calando, com os meus berros loucos,
Esse canto triste dos outros gritos roucos.
Num mundo onde somos muitos,
Mas vivemos e morremos por poucos,
Este se torna o meu maior ato de revolução:
Ser moradia de um amor sem dono,
Sem sono
E sem restrição.

G.F.

terça-feira, 31 de março de 2015

A CIDADE

Me encosto nessa cidade que
Se recicla sobre pontes envelhecidas
E se reinventa ao som dos gritos
Nos barrancos dessa nossa favela-vida.
Com suas mesas fartas de fome
Nos becos escuros da exclusão,
E marcada pelas pegadas dos chinelos
Sujos pelo mangue.
Baseada nesse ultrapassado e meritocrático
Medo de nos igualarmos
E nos completarmos.

Podem calar suas
Bocas carnais
Mas, jamais, a safada,
Libertária
E arrotada
Boca da alma.
Onde nasce a revolta
E o desejo de lutarem.
Porque é isso que queremos,
e necessitamos,
a nossa própria, e louca,
liberdade de errar
e viver.

G.F.