"Se você morrer, o seu filho vai ser que nem a gente, cara. Vai crescer sem pai, sem família, sem amor. É isso que você quer?"
E isso foi a última coisa que eu consegui lhe dizer enquanto olhava em seus olhos, ainda pulsando vida.
Apenas para, depois, vê-lo correr para o som dos pipocos dos tiros e dos gritos de agonia dos outros boys que fecharam com o dono do morro para invadirem a quebrada.
A última coisa que eu consegui lhe dizer enquanto o coração ainda batia, sonoro. O dele, e o meu. Pois, quando ele - meu amigo, meu irmão, meu primo - morreu, meu coração também parou de bater.
Afinal, essa é a cidade do ódio. Nada mais, nada menos do que a cidade dos homens.
E saí, corri, peguei o moleque, filho dele, e o carreguei no colo. Fugi da vida que conhecia, do lugar de onde cresci, das pessoas que amava. Fui pra rua, batalhar por mim, pelo garoto e por ele que não viveu para ver o garoto crescer, nem para vê-lo jogar bola no campinho de barro.
De corpo fechado e coração esfarelado, vivo por nós.
G.F.
Nenhum comentário:
Postar um comentário