Cartazes,
gritos, pichações, ônibus quebrados e incendiados, indivíduos revoltosos com
panos - ou máscaras - cobrindo o rosto, colocando sua "cara à tapa"
em confrontos contra policiais, exército, forças armadas e seja mais o que
vier, e mostrando que não são aquela população alienada e acomodada com que
tantos políticos corruptos sonhavam em comandar. E é isso o que normalmente se
é formado na mente, de grande parte, das pessoas quando se fala em
manifestações, e devo dizer que essa incrível onda de protestos que está
ocorrendo aqui no Brasil - com o começo registrado no meio de 2012 - não foi
diferente. E eu só posso dizer: Graças à Deus!
Segundo, o ex-professor da
UFBA (Universidade Federal da Bahia) e master em Ciência Política e
Administração Pública pela Southern University of California, João
Ubaldo Ribeiro, que em seu livro: "Política
- Quem manda, por que manda, como manda", afirma
que: o Estado é surgido em dois passos: "a) o estabelecimento da diferença
entre governantes e governados; b) a institucionalização dessa
diferença", ou seja, "o Estado é a organização política e jurídica da
sociedade, que muitas vezes, chega a se confundir com esta mesma
sociedade".
Logo, podemos concluir sem
grandes dúvidas que o Estado tem, como seu principal objetivo, organizar e
defender o interesse de sua sociedade. Tudo básico. No entanto, ao longo da
evolução política brasileira (mais precisamente com a transição do estado
monárquico para o republicano), onde passamos de uma visão que tinham sobre o
povo, somente como mão-de-obra, e ganhamos maior destaque e liberdade dentro do
próprio estado, sempre fomos, e continuamos sendo, brutalmente estuprados pelos
nossos governantes que se aproveitaram da completa alienação e da mentalidade
comodista, de grande parte da população, que, graças à isso, acabou por
originar um estereótipo mais marcante e conhecido do brasileiro diante das
outras nações mundo à fora. Roubos de verbas públicas, para uso próprio, ou de
partidos elitistas, que eram, e são - se não me engano - totalmente
independentes da sociedade como um todo, impostos absurdos pagos pela população
(classe-média, ou não), apenas para que uma minúscula parte dela seja realmente
investida no que foi prometido, enquanto a maioria é desviada pela maioria dos
governantes e que "ninguém" sabe para onde vai esse dinheiro (sendo
que a maioria dos políticos corruptos, deste país, possuem mansões, ilhas,
aviões particulares e por aí vai), tirando o fato de que, tudo isso, acaba por
ocasionar no descaso dessas autoridades com a situação social brasileira,
ocasionando a precarização dos itens "básicos" de TODO e QUALQUER
CIDADÃO, como, por exemplo, educação pública e saúde pública de
qualidade, saneamento básico, uma qualidade aproveitável de mobilidade urbana,
uma segurança pública merecedora de ser chamados de “segurança”, empregos de
fácil alcance, mesmo para aqueles com uma péssima formação educacional, além
de vários outros fatores onde somos esquecidos e ficamos calados, quietos, sem
a menor reação perante isso tudo.
Mas, o que mais me
enfurece é que eles continuam com essa mesma imagem do brasileiro (como burros
de carga, que só sabem trabalhar somente para o proveito do dono).
Simplesmente, os anos, décadas, séculos vão passando e as usurpações dos nossos
direitos só vão aumentando, às vezes, até ficar tão ridiculamente visível que
acabamos por ser facilmente tachados de "preguiçoso", “alienados” e “palhaços”
pelos estrangeiros. E, infelizmente está se tornando cada vez mais comum, ao
redor do mundo, se ouvir: "Brasil?! Não é
aquele país em que o PIB é um dos mais altos (o sexto do mundo, segundo o FMI,
em sua análise de 2011), mas com tamanha desigualdade social que,
seu IDH (segundo dados de 2012) está abaixo da média da América Latina, com
23,6% da população num estado financeiro lamentável, onde a miséria atinge um
brasileiro a cada grupo de dez e onde a massa populacional nada faz para mudar
isso?! Para mim, são um bando de selvagens."
Claro, que nos tornamos selvagens, com todo esse
‘vandalismo’ a que somos submetidos. Sem contar, ainda, com a incrível ajudinha
que as grandes empresas midiáticas tem concebido aos partidos ou aos poderios
políticos - em troca de uns "lucrozinhos" ou fatores que levem ao
benefício das grandes famílias que controlam as gigantescas mídias - com seu
controle de massa e sua facilidade na manipulação de notícias e informações, e
que tanto engana e aliena grande parte dos cidadãos brasileiros desinformados.
E foi por este motivo - e
não tenho o acanhamento de dizer - que fiquei extremamente surpreso ao me
deparar com uma fantástica onda de protestos que, ao se aproveitarem da Copa
das Confederações que ocorreu aqui no país este ano, quebrando alguns
monumentos e ônibus - que sempre acontece em qualquer tipo manifestações - para
demonstrar a insatisfação social, acabaram por mobilizar o Brasil e o mundo
para a verdadeira situação social e política aqui praticada. Mas, para mim, o
mais engraçado foi ver a contradição com que o sistema capitalista sofreu com
esse movimento, uma vez que, diferente de qualquer outro protesto de mesmo
porte (influenciados muitas vezes pela própria mídia, ou pela própria força
militar, como foi o caso da ditadura), este foi diferente, foi totalmente
originado e incentivado pelo próprio povo nas redes sociais, na internet - um
meio de comunicação criado, também, para se dificultar a interação externa das
pessoas, mas que acabou arrastando e levando uma grande massa à lutar por seus
direitos - o que deixou os governantes extremamente confusos e sem a menor
idéia de como reagir à tudo isso.
O movimento em si, foi
demarcado por duas fases, com caracteríticas distintas entre elas, mas ambas
organizadas online.
1#: A primeira
fase, que foi demarcada pelo estopim da revolta, causado pelo aumento dos
preços da tarifa dos transportes públicos na principais cidades do país, onde
começou toda a mobilização, como São Paulo e Rio de Janeiro, que teve um aumento
de R$ 0,20 nas tarifas dos ônibus, e que começou a tomar corpo nos dias
6, 7 e 11 de junho.
Vimo uma completa falta de
apoio e aprovação por parte das grandes mídias nacionais, pouca participação
popular, uma mobilização organizada, principalmente pelo MPL (Movimento Passe
Livre), com um foco único de solucionar antigos e novos problemas nos meios de
transporte dessas mesmas cidades, além de muitos conflitos violentos entre
policiais e manifestantes (que talvez tenha sido uma das características mais
importantes, uma vez que, o excesso de violência exercida pela polícia,
extremamente mal treinadas para ocasiões como essa, acabou por atrair,
paradoxalmente, mais manifestantes às ruas) que resultou em vários
manifestantes, e alguns policiais, feridos. Graças a esta postura, a mídia
resolveu noticiar sobre, o que eles classificaram como vandalismo ou, numa
escala mais séria, terrorismo. Como resposta da insatisfação popular perante a
excedente represália policial e com a manipulação com que os meios televisivos
noticiavam o ocorrido, dia 13 de junho os protestos se espalharam para mais
cidades ao redor do país, acarretando num maior confronto entre a CHOQUE, PM's
e manifestantes e que, por sua vez, diretamente proporcional ao nº de
protestos, à um maior numero de manifestantes detidos e feridos, além de
próprios jornalistas da imprensa (que gradualmente mudaram o discurso, e começaram
a atacar a postura policial praticada).
Neste período mais de 300
pessoas foram detidas, aproximadamente 1/3 foram "detidas para averiguação" - prática
comum em ditaduras - já que não houve flagrantes, e pior ainda, outros detidos
por portar vinagre (?!), que
estavam sendo usados como meios de proteção ao gás lacrimogênio e ao spray de
pimenta atirado pelos policias. (UM VERDADEIRO ABSURDO!!)
E, como era de se esperar,
tudo isso levou a um clima de "vamos colocar na mesa tudo com o que
estamos insatisfeitos", e com isso uma escalada direta para a “segunda
fase” do movimento começou.
2#: Já,
na segunda fase dos protestos é que a bomba-relógio realmente explode - por
assim dizer - as manifestações são majoritariamente pacíficas, com grande
cobertura midiática apoiando (não só do Brasil, mas de todo o mundo), massiva
participação popular, abatimento do foco dos transportes públicos, e com isso,
a perda da liderança do MPL no movimento, além de uma posição de repúdio à
presenças de bandeiras de partidos políticos nas manifestações e novas
exigências sendo colocadas em pauta, como a anulação das PEC' 33 e 37,
"cura" gay, ato médico, maior investimento na educação, excessivos
gasto com as Copas das Confederações da FIFA de 2013 (onde foi registrados
manifestações, com a principal intenção de impedir o tráfego ou chamar a
atenção da imprensa mundial durante os jogos ocorridos durante esse tempo), com
a Copa do Mundo FIFA 2014, reforma política e mais outras diversas
insatisfações que estavam "presas na garganta" da população, e que
nunca tiveram uma oportunidade de se soltar... até agora.
No dia 20
de junho, houve um pico de, um pouco mais de 1,4 milhões de pessoas nas ruas em
mais de 120 cidades pelo Brasil. Todo esse efeito dominó, que extraordinariamente
levou os governantes à repensarem em suas atitudes e que, para uma tentativa,
talvez, de se amenizar a situação, apoiaram e aprovaram várias das pautas
abordadas pela população, como a anulação da PEC 37, a promessa da presidente
Dilma Rusself - em rede nacional, vale ressaltar - do direcionamento
de 100% dos royaltes do petróleo para a educação, da aprovação da lei que
transforma corrupção em crime hediondo, entre vários outros que, acredito,
ainda estão por vim.
Sei que me prolonguei bem
mais do que eu esperava para redigir esse texto, mas achei justo que, diante de
um salto tão grande na nossa democracia brasileira e na guerra contra a
corrupção, ele merecia um texto à altura dessa grande vitória do povo nas ruas.
Isso só demonstra que,
mesmo disfarçadamente, ainda vivemos numa democracia, onde o poder está na mão
exclusivamente do povo.
No entanto, eis que
alerto, dizendo: A GUERRA AINDA NÃO ACABOU!! Vencemos a batalha, mas a guerra
vamos ver... e por esta mesma razão peço que, mesmo com o enfraquecimento da
onda das revoltas populares, continuemos a nos mostrar antenados, nos mostrar
dispostos a não voltarmos a nossa comodidade, ao nosso silêncio, que antes
tanto perpetrou o estrago, dos nossos direitos.
E que venha mais batalhas,
porque eu sinto - e me arrepiando, eu digo - que o povo tem o poder, que ele
está quase em seu total descobrimento, seu autoconhecimento da gigantesca
capacidade dele de virar esse jogo que, antes, era tão diferenciado.
Abraços,
G.M.F.