quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

NOITE

  Não sei bem o que foi aquilo. Uma gota da minha tristeza salgada, imaculada e ilusória derramando-se pelo meu rosto inexpressível ao admirar o breu e as estrelas da minha janela. Talvez seja só sentimentalismo em demasia.
  Mas, afinal de contas, que tristeza? Qual motivo para tanto sentimentalismo vindo de alguém tão extremamente racional e calculista – frio, como um iceberg pronto para afundar qualquer que seja o Titanic que viesse em minha direção -?   Na verdade, essa é uma das minhas poucas qualidades apreciadas por mim mesmo: A independência sentimental, mas que, aparentemente, está sendo arrebatado pela beleza da solidão dessas noites escuras e quentes de verão.
  Nunca liguei para a solidão, sempre a via como uma amiga, uma antiga companheira, pronta para abrir seus braços e me abrigar no momento em que eu mais precisasse. Mas, ainda assim, para que essa lágrima?
  Arrependimento? Não tenho – e continuo não pretendendo ter - 
  Culpa? Pelo o que?
  Inveja? Não causaria esse clima tão down.
  Não sei ao certo, talvez seja só uma advertência interna avisando que está na hora de rever essas minhas posturas sacanas e depravadas. Não sei, pode ser.   Contudo, não sei se consigo ser de outro jeito. Na verdade, não quero ser de outro jeito – mas o que é que eu estou falando?! Que se fodam todos! -, tudo o que conquistei foi sendo assim, então porque mudar? 
 Sendo este geminiano em aquário compreendo a importância e necessidade da mudança, até porque tenho quase uma obsessão com ela. É cansativa e às vezes enoja, mas a adoro. Talvez eu seja só mais um louco, ou algo do tipo, mas isso ainda não me responde a razão da minha perdida e tão indesejada lágrima.
  Parece que tenho que começar a me acostumar com a ideia de que a vida tem dessas coisas e então – só então – poderei dormir mais tranqüilo e leve.

- G.F.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O AMOR É O RIDÍCULO DA VIDA

Estamos cercados, reprimidos, contrariado pelo ridículo, estamos sempre procurando uma beleza impossível, uma beleza forjada aos moldes do romantismo, uma beleza ilusória e estereotipada. Porque essa nossa necessidade de buscar um sentimento tão aprisionado e forçado?

“O amor” vai virar o ridículo da vida.

Procuramos sempre nos satisfazer, somos seres movidos pelo egoísmo, egocentrismo e pelo medo. Sorte é se aceitarmos essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, nos obrigando a sempre pensar no futuro e nunca no presente, sendo esse pensamento nosso redentor, pronto para nos acudir assim que a esperança morresse nos despreocupando do aproveitamento dessa vida tão vazia, nos preocupando com coisas tão pequenas, despreocupando quem não sabe amar, quem veio a este mundo e perdeu a viagem, e nos obrigando a limitar, ainda mais, esse que tempo que temos deste lado - se existir mesmo um outro lado -.

Vivemos em uma mentira, somos movidos a mentiras: O amor, a família, a vida, a morte. Nossa esperança.

Isso é uma perda de tempo, isso tudo. Talvez, se vivêssemos com o foco no agora, se resolvêssemos amar o agora, atuar pelo agora, viver pelo agora, apanhar qualquer centelha de esperança e coragem. Mas, só talvez...

“O amor” virou o ridículo da vida.

Procuramos nele uma beleza impossível, inalcançável, uma beleza que está sempre se pondo, indo embora, bonita e breve. Como borboletas que só vivem vinte e quatro horas.

Isso não é “O amor”, isso é uma das mais famosas e bem fabricadas farsas desse mundo.

Morrer não dói.

O que dói é a sensação de que você talvez não encontre o que tanto esperava no outro lado, o que dói é a percepção de que tudo o que você fez foi em vão, o que dói é perceber que passamos à vida toda restringindo o nosso amor, prendendo um sentimento que, assim como as andorinhas, nasceu para a liberdade e a alegria dos casais apaixonados nos parques, de mãos dadas e beijos trocados no canto da boca.

“O amor” é o ridículo da vida.

Mas sempre fui apaixonado pelo ridículo.

- G.F.


- Inspirado em um dos últimos poemas escritos pelo compositor e poeta Cazuza.

sábado, 12 de outubro de 2013

MINHA VIDA MERECE MAIS!!

  Juro para vocês, que só estou aqui hoje, escrevendo, graças à uma amiga e ao seu maravilhoso texto no facebook que conseguiu, sem nenhuma dificuldade, me libertar de todo esse gigantesco e bizarro turbilhão de informações, dúvidas e bagunças que estão assolando minha cabeça e me obrigando a entrar em um bloqueio criativo desde que esse maldito 3º ano começou.
  Bem, vamos ao que interessa...
  Sim, o terceirão chegou e, com o último ano no colégio, vieram, também, várias outras responsabilidades, como: a maioridade penal, maior foco nos estudos, foco no vestibular, foco na sua futura faculdade, foco na sua futura carreira profissional, foco na sua futura estabilidade econômica, na sua futura, e gorda, aposentadoria e na sua herança que você DEVERÁ deixar para os seus descendentes e mais de um milhão de problemas banais que acabamos transformando em um bicho de sete cabeças. Mas, qual é o problema nisso, afinal?! Isso é o básico que um verdadeiro cidadão é obrigado a fazer antes de morrer, não é?!
  Será?! É aí que está. Ninguém sabe, ao menos, a verdadeira razão dessa excessiva saturação mental e sua ingênua competitividade, somente para garantir uma vaga em uma faculdade, através de um vestibular com um número tão absurdo de questões que é capaz de embaralhar qualquer cérebro são, e transformá-lo em um pudim de passas. Mas, o porquê disso tudo?! Por quê?! Por quê?
  Nunca me vi como um aluno dedicado, esforçado, inteligente, acima da média ou qualquer sinônimo dessas coisas, mas, também, nunca me vi como um burro alienado e nunca fui, na maioria das vezes, de fazer algo sem me questionar antes. Afinal, estou a 16 anos preso em um colégio, sem saber o porquê de estar ali, e o porquê de estarmos sendo treinados como cães em um canil, apenas para ficarmos prontos para competir em um maldito campeonato canino – Sente!  Lata!  Aprenda!  Não se mexa!  Trabalhe!  Não questione!  Não rosne!  Não morda!  -
  “Mas, ora essa, que pergunta idiota, vocês estão sendo treinados para a vida.”
  Era a resposta mais comum que ouvia dos professores e orientadores depois dos meus questionamentos em sala de aula.
  Uma breve vida, um mísero tempo que temos entre o nosso nascimento e nossa morte, um breve momento de cor, sabor, som e amor, mas que não temos mais tempo para aproveitar, mas tudo bem, afinal, estamos sendo treinados para a vida, certo?!
  Errado, e é isso que não aprendemos nas escolas: não nascemos para viver assim, não ganhamos a vida só para desperdiçá-la com 217391749837 (se duvidar, nem é exagero) horas de aprendizado de assuntos irrelevantes, que não tornarão nossas vidas mais felizes, não somos obrigados a aguentar toda essa preocupação, todo esse nervosismo, essa frieza, toda essa rivalidade. No entanto, estamos de tal forma, tão crentes e enraizados em um único sistema educacional, que não acreditamos que exista um mundo fora de toda essa paranoia.
  Então, onde eles erraram?! Infelizmente, em tudo e em nada. O verdadeiro problema está no falido e fracassado sistema educacional (não somente brasileiro, devo lembrar), onde nossa beleza é resumida em propaganda de novelas, shampoos anti-caspa, estereótipos e moda, onde nossa inteligência é resumida em notas, onde nosso futuro profissional é resumido em quem consegue ser o melhor em uma prova – não de conhecimento, mas de assuntos escolares - e onde nossa vida na sociedade é resumida na quantidade de números da nossa conta bancária.
     Frases, como: “Cai no vestibular?”; “Se eu não passar em uma faculdade boa eu me mato”; “Vou fazer medicina, direito ou engenharia, pois o resto não dá dinheiro”; “Quero fazer artes, mas meus pais não deixam, então vou fazer medicina para ficar rica”; já se tornaram terríveis clichês nas bocas de meus colegas pré-vestibulandos, de colegas que tiveram sua (verdadeira) visão tapada por uma viseira, chamada de “OBRIGAÇÃO SOCIAL”.
  Segundo Zygmund Bauman, “quando decidimos usufruir da liberdade, perdemos nossa proteção, assim como escolhemos seguir com proteção cedemos uma parcela de nossa liberdade”.
  Temos medo de tudo e todos, nessa eterna disputa, contra nós mesmos, em que vivemos. “Precisamos de proteção” e esse se tornou o lema desse sistema. A liberdade (a liberdade de viver de nossos sonhos) se tornou algo perigoso e proibido. Quem resolve fugir desse insano plano social se torna os “vagabundos” que vagam pelas calçadas dos grandes centros urbanos, os marginais que pedem esmolas.
   Não tenho como meta um estilo de vida espalhafatoso; não tenho como obrigação pessoal honrar minha família passando no primeiro lugar, na melhor faculdade, no curso mais disputado, pois, eu sei que, sendo minha família ela irá apoiar minha escolha, não importando se forem artes cênicas, cinema, arquivologia, biblioteconomia ou dança; também não tenho como meta trabalhar por dinheiro, pois irei trabalhar por diversão; não pretendo massacrar meus oponentes, pois, antes de tudo, eles são tão vítimas desse cruel sistema quanto eu; e, por fim, não pretendo subordinar minha vida ao vestibular, pois ela é muito mais do que isso.
  Não devo falar só por mim, quando digo que cansei de jogar esse jogo, cansei de ser só um mísero observador de minha própria vida, cansei de ser igual a todos os outros milhares de robôs programados para não pensarem, para estarem tão preocupados com o vestibular que ignoram os verdadeiros problemas fora de suas janelas, cansei de pensar como eles, cansei de tentar me enquadrar nesse patético padrão social, cansei de ser alienado como eles, cansei de agir como eles, amar como eles e, principalmente, viver como eles.

- G.F.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

UNIDOS PELO AMOR, SEPARADOS PELO DESTINO


-Que data é hoje, amigo? - Perguntou o jovem ao seu colega de trabalho.
- 19 de agosto - Respondeu, num mero grunhido, tentando se ajeitar no banco para voltar a dormir.
- Que noite, hein?! - Observou o jovem sentado em um velho banco de plástico, fumando o seu terceiro cigarro do dia e olhando para as estrelas que estavam despontando daquele céu lindamente limpo e negro.
- Pois é, bem estrelado - Respondeu com um sussurro sonolento, quase automático.
  No entanto, não conseguiu aproveitar por muito mais tempo a sua visão daquela obra da natureza, pois logo visualizou um veículo que surgia no início da ruazinha que eu se encontrava e que, por razão de um restaurante ali perto, estava sempre cheia de carros e nunca com uma vaga disponível. 
  O carro precisava do seu auxílio para estacionar - sim, ele "trabalhava" com isso -, apagou o cigarro, e correu para ajudá-lo.
- Pode estacionar aqui chefia, eu fico olhando - Gritou para o coroa que estava dirigindo. Um senhor de meia-idade, cabelos grisalhos, pele avermelhada nas regiões das bochechas e um enorme óculos quase despencando da ponta de seu grande e gordo nariz.
  Ele não pareceu muito convencido, e após o ver emergindo das sombras - um negro, maltrapilho, imundo e malcheiroso - correndo, tentando chamar sua atenção, não pensou duas vezes: Pisou fundo!
- Maldito filho da puta! - Gritou, em resposta ao som do motor do carro. - Hoje, com certeza, não é meu dia de sorte - Praguejou, chutando uma lata no meio fio e fazendo o caminho de volta para o seu velho banquinho.
  Porém, algo o deteve. Não sei dizer o que, mas o obrigou a levantar a cabeça e se deparar com algo que nunca pensou que veria em vida. Um puro anjo, em sua forma personificada e completa - uma obra tão apolínea em sua áurea e, simultaneamente, dionisíaca em seu estilo provocante de andar - que não acreditou se tratar de uma mortal.
  Um querubim encarnado na forma humana fraca e mortal. Seus olhos brilhavam como lagos, com toda sua poesia e seus lisos cabelos ruivos, como as chamas da paixão;
   Entretanto, notou um pequeno objeto reluzindo em seu pulso: um Rolex. Foi a partir daí que se tocou por quem tinha, perdidamente, se apaixonado.
- É, isso vai ser um problema - sussurrou.
  No entanto, num lampejo de coragem e idiotice, puxou um pouco de ar para seus pulmões trêmulos - com a provável probabilidade de um contato direto com a tão bela e sonhada "alienígena", um outro ser, de um universo completamente contrário ao dele: o mundo dos condomínios de luxo e piscinas de hidro massagem - e atravessou a rua atrás da sua - possível - "cara-metade".
- Olá, a senhorita gostaria de alguma ajuda? - Perguntou ele, timidamente, com sua nítida voz grossa e saliente estremecida e abalada.
- Claro, você trabalha aqui, né?! Onde está seu uniforme? - Perguntou ela, lançando um olhar tão meticuloso para ele, que o mesmo se encolheu, imaginando se ela conseguiria enxergar sua alma.
- Não moça, só queria ajudar.
- Ah, então será que você pode me fazer um favor e ligar para um táxi? - Perguntou ela, voltando à encará-lo.
- Tenho telefone não, moça - Se desculpou.
- Então porque veio falar comigo? - Perguntou ela.
- Só gostaria de falar para a encantadora dama que, quando a mesma passou, eu, um humilde trabalhador, não consegui comandar meus pensamentos para com a sua pessoa e com muito prazer venho lhe dizer que, com os meus mais sinceros sentimentos nesta noite auspiciosa, nunca encontrei e, muito provavelmente, nunca irei encontrar uma beleza tão excepcional como a sua, de seu lindo movimento que faz com o pescoço quando caminha tão sutilmente que parece que possui a flutuação como um de seus dons.
- Puxa, isso vindo de uma pessoa que mal conheço não deixa de ser tocante - Declarou, com as sobrancelhas arqueadas em total espanto. 
- Que não seja por isso, me chamo Alexandre Silva. Agora, acredito que mereço uma recompensa. - Cochicha ele, a olhando nos olhos para ver se ela era de verdade.
- Que recompensa?
- Seu nome.
- Ah, me chamo Clarisse Chevalier - Respondeu ela, com o olhar direcionado para o chão e uma pequena coloração avermelhada em sua face.
- É francês? - Perguntou ele, somente para puxar papo.
- Sim, meus avôs eram franceses e morei lá durante minha infância - Respondeu ela, num leve sussurro, com os olhos encarando o mesmo lugar do chão de antes.
- Então, é um prazer conhecê-la Mademoiselle Clarisse - Falou, estendendo o braço e se inclinando para beijar aquela macia mão da envergonhada jovem.
  A súbita vergonha por parte da senhorita Clarisse, não poderia ter causado um efeito maior de conforto e incomodo no pobre Alexandre, ao perceber que, mesmo que por fora ela passe uma imagem de autoridade e controle, introspectivamente ela não é nada mais do que um mulher que - assim como todas - adoram tanto receber elogios que, às vezes, acaba não sabendo como reagir.
- Está com pressa? Estou com meu violão e algumas coca-colas e, talvez, poucas cervejas ainda no isopor, se quiser me acompanhar... - A-convidou, estendendo um braço, como um jovem cavalheiro num baile de máscaras em plena época monárquica.
- Hum... até que não vejo problema, mas como voltarei para casa sem táxi? - Perguntou ela, temerosa.
- Isso não seria problema, passa táxi aqui de cinco em cinco minutos e ,qualquer coisa, eu tenho um amigo taxista que tem seu "ponto" ali na esquina do lado daquele prédio - Falou, apontando para uma das esquinas da rua principal do bairro.
  E ela o-acompanhou, em sua livre e espontânea vontade, movida apenas pela curiosidade e fascínio por aquele homem, não muito bonito, mas bastante atraente pela sua forma de ser, sua sinceridade, sua humildade e, acima de tudo, pela coragem em abordar uma estranha em plena noite de lua cheia e poucas nuvens.
- Cerveja ou coca? - Perguntou.
- Cerveja. - Escolheu. Ele pareceu um pouco espantado pela escolha, mas nada falou, só esticou o braço agarrou o seu violão e começou a tocar com sua voz, embora grave, mas extremamente afinada e melódica, a primeira música que lhe-veio à cabeça. E a noite passou assim para eles, na "serenata", com muita conversa, goles de Brahma gelada e bastantes risadas, com apenas a lua e as árvores como plateia daquele amor que estava nascendo para ambos.
  Assim o tempo passou voando, decolando, adiantando, dando uma oportunidade ao amor. 
  Ao perceber o horário, que já tinha se passado das 3 e meia da madrugada. Clarisse levantou.
- Ah, droga! Preciso ir, são quase quatro da matina e eu preciso chegar em casa antes que meus pais acordem - Exclamou, arrumado sua roupa e jogando as suas latas em um lixo próximo.
- Tudo bem, mas não posso deixá-la ir assim, sem nenhuma lembrança minha de tu. Como poderei prometer à mim mesmo que a verei de novo?! - Perguntou ele, também se levantando e indo ao lixo, jogar suas latas.
- O que você sugere... - E, antes mesmo do término da fala, ele, rápido nos movimentos graças à malícia e a habilidade que a rua tinha lhe-proporcionado, roubou-lhe um beijo assim que a guarda da jovem abaixou.
  Foi um beijo tímido e surpreso no início  mas que logo depois foi ganhando forma, corpo, e foi se acendendo como uma pequena fogueira nas noite frias de inverno. Ela respondeu também ao inesperado afago e juntos se sentiram completos, sentiram que - durante aqueles minutos - nada mais existia, não existia o mundo externo, somente aquele momento, somente eles dois e sua troca de carícias e afetos. Mas, afinal, não é isso que chamam de amor?
E foi com uma estranha sensação que Alexandre se sentiu cada vez mais distante da jovem, como se o estivessem puxando para longe de sua dama.
- Acorda! Como você dorme no meio do trabalho, rapaz? Acorda! - Ouviu ele, assim que abriu os olhos e, ainda perturbado, se levantou e se viu no mesmo banquinho velho de plástico, no mesmo lugar e com o mesmo colega gritando em seu ouvido.
- Que data é hoje? - Perguntou, para ter a certeza de que tinha sido somente um sonho.
- 19 de agosto - Respondeu.
  "Tinha sido um sonho. Somente um sonho. Totalmente ilusório e utópico", pensou ele. "Mas, não poderia ter sido um sonho. Tinha sido tão real..."
 E foi nessa hora que ele levantou o olhar e a viu. A garota do sonho - ou destino - do outro lado da calçada, no mesmo lugar, no mesmo horário, com as mesmas roupas e acessórios e com o mesmo jeito de caminhar que o seduziu tanto.
  E sem pensar, ele saltou do banco e correu o mais rápido que conseguia um corpo que acabou de sair do estado de sonolência.
  Infelizmente, esqueceu que aquela rua era bastante movimentada, principalmente por veículos de porte, e a última coisa que ouviu foi os gritos de advertência de seu colega e a buzina do caminhão que vinha à 90 km/h. Depois de perceber tudo, só deu tempo de olhar - pela última vez - para aqueles lindos cabelos ruivos e depois... O escuro.
   Gritos, buzinas, destroços e sangue se espalharam no asfalto da rua.

- G.F.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O ÚLTIMO BEIJO

   "A vida é bela e cruel despida, tão desprevenida e exata que um dia acaba." 
   
   E eu realmente não planejava beija-lo essa noite. No entanto, a melancolia a qual ele se encontrava era, de tal forma, palpável que me fui obrigado pelo meu próprio consciente a fazê-lo. Era não mais do que um mero senhor, cabelos ralos e brancos, uma pele que lembrava um couro envelhecido e flácido, com sua bengala inseparável, aposentado por problemas de saúde, filha morta, aos seis anos de idade, junto com sua esposa há quase um ano e virou um alcoólatra depressivo.
  Como já disse, não estava marcado de ir vê-lo esta noite, mas para lá eu fui:
- Até que enfim você chegou - Resmungou ele, desviando sua atenção da janela e dos movimentos dos carros na rua para me ver passando pela porta.
- Não era nem para eu estar aqui Pedro - Respondi.
- NÃO ERA?! COMO ASSIM NÃO ERA?! OLHE MEU ESTADO, SERÁ QUE NINGUÉM MAIS LIGA PARA OS PROBLEMAS DOS OUTROS?! - Bradou, se levantando, com seu copo de vinho na mão e seu cigarro acesso, prestes a jogá-los em mim.
- Na verdade, não mesmo, mas estou aqui - Falei, não ligando para o copo, parando no meio da sala para analisar o ambiente. - Quando foi à última vez que você deu uma faxina nesse apartamento?
- Há quase um ano, eu preciso dizer a data também? - Retrucou ele, me encarando de tal forma que cheguei a me arrepender de ter feito uma pergunta tão estúpida.
- Você sente muito a falta delas, não é?! - Ele continuou a me fitar e, quando cogitei a possibilidade de que ele não fosse me responder, o rubor em seu rosto diminui e ele voltou a se sentar.
- Mais do que imagina - Confessou ele com princípio de lágrimas nos olhos - Mas você deveria saber, não?! -
  Notei seu estado e me aproximei para tentar reconfortá-lo, mas ao me ver aproximando ele levantou seus olhos empapados pelas lágrimas e seu rosto tomado pela tristeza.
- Quero saber... Quero saber o que ela disse antes de morrer - Pediu ele, soluçando.
Muito embora eu tivesse sido a ultima imagem a quem a mulher dele deslumbrou antes de morrer, me delonguei a responder, já que a ultima fala de Tereza não tinha sido sobre ele.
- Ela só falou de você - Menti.
Ao ouvir essa resposta me lançou um abatido sorriso e voltou a focar sua atenção na janela. - Continua mentindo, não é mesmo?! - E começou a rir.
- Você já procurou sair deste casulo?! Digo, voltar a trabalhar ou voltar a viver, pelo menos?! - Perguntei.
- É uma boa pergunta, vindo de alguém que tem como profissão abraçar, beijar e levar pessoas desconhecidas até sua casa, ou sei lá que diabos onde - Rebateu, com seu sorriso desfalecendo em seu rosto.
- Este é meu trabalho. Você fala isso, mas estou aqui para beijá-lo, e apenas porque me chamastes. Afinal, quer que eu me retires, desistiu de me beijar?
- Não... não, pode ficar. Perdoe minha falta de cavalheirismo, apenas estou me acostumando com a ideia de que daqui a pouco vou morrer, e que a minha vida, nos últimos tempos, se tornou um verdadeiro inferno. - Se desculpou.
Achei justo e acabei decidindo dar um mínimo de tempo para que ele pudesse relaxar. Enquanto isso, resolvi conhecer a casa, que se encontrava bastante mudada desde a minha última visita. Móveis quebrados, livros espalhados pelo azulejo e teias de aranha em quase toda parte. Terrível.
  Ao retornar à minúscula sala, o encontrei dormindo, com o resto do cigarro entre os dedos. Tentei acordá-lo, pois não poderia me demorar muito tempo ali.
- Acorde! Sinto informar, mas ainda tenho outros serviços para atender, vai querer que eu ainda o-faça ou não?! - Informei.
- Quero sim, quero... Me desculpe. Sabe, deve ser legal ser como você, digo, não criar vínculos com ninguém, não ter aquele "amor para a vida toda". Não ter sofrimento ou dor por esta causa - Refletiu ele, jogando o filtro de seu cigarro apagado fora e se levantando.
- Também tem suas desvantagens - Falei, o segurando pelos ombros e observando a força esgueirar-se de seu corpo.
- Sonhei muito com isso, sabia? Como seria esse beijo, mesmo depois de casado continuava a pensar em como eu estaria durante sua visita, se eu teria conseguido algo na vida, se eu estaria muito velho, um pouco mais jovem... e agora você está aqui e parece que tudo passou voando - Sussurrou ele, agora sem energia para fortificar sua voz.
- Mas agora tudo acabou, irá reencontrar as mulheres da sua vida, não é?! - Sussurrei de volta. - E sobre eu não me apegar a ninguém... Está enganado, às vezes acontece - Sorri.
- Eu sabia!! - me devolveu o sorriso, agora quase inexistente, mas feliz e satisfeito.
Então eu o-beijei, mas com o um forte sentimento de culpa, culpa por todos os sofrimentos que eu o concebi, por tê-lo encontrado nesta situação deplorável e por não ter feito nada para ampará-lo.
  Ao final do beijo ele se encontrava falecido em meu colo. Apanhei o cadáver e o deitei em sua cama que, durante a apreciação do corpo, me lembrou de uma antiga frase do próprio defunto Pedro:
- "A morte não sente condolência, não sente tristeza ou penar." - Dizia ele, repetindo sempre que podia.
- Parece que você se enganou, meu velho - Pensei alto e gargalhei, peguei minha foice e parti, mais alegre.

- G.F.

Inspirado em trechos da música, "Canto para minha morte", de Raul Seixas:
"(...) A morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sem em que esquina ela vai me beijar. (...) E no beijo, provar o gosto estranho, que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar. Vem, mas demore a chegar. Eu te detesto e amo, morte, morte, morte. Que talvez seja o segredo dessa vida (...)"

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

INVEJA

   Sinto inveja daqueles malditos casais apaixonados que tanto povoam os parques das cidades, de mãos dadas e selinhos trocados às escondidas. Sinto inveja das pessoas que encontram seu “amor” – se assim eu posso chamá-los -, eu vejo a felicidade e o descobrimento de um novo mundo, de um novo horizonte neles, quando encontram o olhar da pessoa amada. Que inveja. Às vezes sinto como se vivesse somente para procurar, procurar algo, ou alguém. Sempre procurando, só procurando.
  Não vou mentir que eu adoro essa sensação de liberdade que me cerca, essa liberdade de ir e vir, a liberdade de não ser tão indefeso como um apaixonado, que vive somente para a pessoa amada. Porém, sinto saudades dessa minha época de um otário apaixonado. O amor é só para quem não entende nada da vida, ou para quem já não tem nada para aprender com ela.
  Como o amor chega a ser engraçado: vivemos de coragem, mas na hora da demonstração caímos bambos, como palhaços de circo em pernas-de-pau. Tão ridículo.
  Já cheguei a odiar antigos amores, pois conseguiram - mesmo que em segredo - levar com elas um pedaço do meu desgraçado coração. Malditos pedaços que não irão voltar. Amores que, talvez pelo meu egocentrismo, acreditava que deveriam viver para mim. Nossa como eu estava errado.
  Sinceramente, acho que desaprendi a amar, desaprendi a sentir aquelas maravilhosas borboletas no estômago, aquele nervosismo ao se conversar e se abrir com a pessoa amada. Talvez eu seja apenas um iniciante, tentando dar um salto mortal de costa, ou talvez eu já seja um profissional querendo apenas descansar. Não importa.
  Talvez eu devesse ficar puto com o que já me aconteceu e com o que eu sinto agora, mas como posso ficar puto com tanta beleza nesse mundo e nessa vida?!
  Sinto como se – mesmo com toda minha inveja – existisse uma dança secreta por trás de todo casal apaixonado, uma dança rítmica que, se você prestar bastante atenção, também poderá enxergar. A dança da vida. Tudo mágico e lindo, tudo completamente desnecessariamente necessário, me mostrando que não preciso temer a nada, pois a vida é maravilhosa demais para isso, mostrando que sempre temos tempo.
  Talvez eu só consiga fazer algum mal a mim mesmo, talvez seja para isso que eu nasci - sinceramente, tanto faz para mim - mas, enquanto durar a beleza dessa “dança”, continuarei muito bem apenas como espectador.

- G.F.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

AMOR, DISFORME AMOR!



Depois de abandonar a Rússia, estudar em Cambridge (onde se licenciou em literatura russa e francesa) e morado em Berlim (onde trabalhou como tradutor), Vladimir Nabokov teve que fugir do exército nazista e, após uma estada em Paris, chegou aos Estados Unidos em 1940, onde atuou como escritor e professor de literatura russa e onde, principalmente, criou suas principais obras.
  
  Lolita, um romance escrito em inglês, publicado em 1955 - mas que ainda continua genialmente atual - além, também, de ganhar fama por ter sido extremamente polêmico - já que foi rejeitado por diversas editoras que diziam se tratar de "pornografia pura" e que "nunca faria sucesso" - rendendo a Vladimir uma obra-prima e o TOP 11 dos "livros mais polêmicos da história" pela revista “Mundo Estranho”.

  Este livro chegou ao meu conhecimento por parte de uma grande amiga (e Mari, estou te devendo uma!) e que, com seu enredo em 1ª pessoa (que infelizmente, ou felizmente, nos passa somente uma visão contaminada, uma visão parcial movida somente pela visão do próprio protagonista), a riqueza de detalhes dos lugares e pessoas e a inteligente capacidade de saber o que o protagonista pensa e sente, conseguiu atrair minha atenção, minha completa devoção, como um imã, uma força gravitacional que me puxou para a trágica história de Humbert Humbert, um professor de poesia francesa de, aproximadamente, 40 anos que, por razão de um romance traumático em sua juventude, se descreve como um pervertido, uma pessoa que possui uma necessidade diabólica de querer garotas jovens e que acaba por se deparar com sua personificação, com sua criação imaginária e completamente mortalizada: Dolores Haze ("Dolores, Dolly, Lô, Lola, Lolita, a minha Lolita") uma garota - que depois vira sua enteada - de apenas 12 anos e que, através de sua imagem passada pelo romance, possui uma certa ambiguidade em suas ações, sendo descrita por Humbert  como uma garota com uma áurea infantil, mas que, em certas partes do livro pode-se perceber, através de suas ações, a sua mentalidade "ninfeta" manipuladora e controladora.

  Lolita é um livro que - queira goste, ou não - é lido pela ansiedade, pela curiosidade de descobrir o que acontecerá na próxima página, no próximo capítulo, no final do livro... Lembro-me que enquanto eu lia o romance, várias pessoas (e foram várias mesmo) me perguntavam:  "Como consegue gostar de um livro desses? Você não acha que esse livro é completamente doentio ?!". Sinceramente, não posso e não devo negar essa ideia. O livro fala de um caso imundo? Sim! Vladimir foi completamente depravado ao escrever sobre um amor tão incomum e hediondo? Sim! Mas estamos somente focados na visão imposta por uma cultura, uma sociedade. Afinal, quem definiu sobre o que é a moralidade e o desprezível? 

  Pode-se falar o que quiser do romance, mas de uma coisa nós - todos nós - podemos ter a certeza: Nabokov foi extraordinariamente atrevido ao publicar um livro que, além de ser bastante polêmico, pisoteia a cara da moralidade de uma época em que o tabu da pedófilia era demasiadamente rigoroso.
  
  A história de uma paixão tão obscena, tão depravante que acaba por cativar o leitor. Uma história onde você acompanha a trajetória do declínio da razão do protagonista Humbert Humbert, de suas faculdades mentais, que, por medo de perder, acaba por sufocar o seu "amor proibido", sua Lolita, de tal modo que ela tenta desesperadamente se ver livre desse "monstro" e que, claro, só poderia acabar em tragédia!

  Mas devo descaradamente dizer que, ao terminar o livro eu me encontrava de tal forma preso na narrativa cativante - mas, ao mesmo tempo cansativa pelo excesso de detalhes e descrições, além de ditados e citações em francês que, para pessoas monoglotas como eu, acaba por se tornar bastante desgastante - de Nabokov que, em minha cabeça a história não tinha acabado. A conclusão da obra me levou à um ócio cogitativo, uma espécie de transe onde, através das diversas informações e comentários contidos no livro, me vi obrigado a pensar em todo o tormento vivido por Humbert até a hora de sua morte e em como as situações repentinas acarretaram numa ruína para os dois lados opostos do romance. Um livro que divide as opiniões dos leitores - sobre a verdadeira natureza de Humbert Humbert e Dolores Haze - desde a primeira página até o posfácio. 


  Para concluir, antes que comecem os julgamentos precedentes à leitura eu vos-sugiro: Ame, morra de amor, veja seu amor te desprezar a cada dia, cometa um amor extasiante mas proibido, esqueça as moralidades a que a sociedade ordena que obedeça e debruce-se nas páginas e conheça a tristeza e o cinismo natural de Humbert nesta maravilhosa obra-prima da literatura contemporânea que, sem dúvida nenhuma, tem todo o direito de se encontrar na lista das obras mais inesquecíveis do século XX.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O ESTADO E OS PROTESTOS NO BRASIL

  














  Cartazes, gritos, pichações, ônibus quebrados e incendiados, indivíduos revoltosos com panos - ou máscaras - cobrindo o rosto, colocando sua "cara à tapa" em confrontos contra policiais, exército, forças armadas e seja mais o que vier, e mostrando que não são aquela população alienada e acomodada com que tantos políticos corruptos sonhavam em comandar. E é isso o que normalmente se é formado na mente, de grande parte, das pessoas quando se fala em manifestações, e devo dizer que essa incrível onda de protestos que está ocorrendo aqui no Brasil - com o começo registrado no meio de 2012 - não foi diferente. E eu só posso dizer: Graças à Deus!
  Segundo, o ex-professor da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e master em Ciência Política e Administração Pública pela Southern University of California, João Ubaldo Ribeiro, que em seu livro: "Política - Quem manda, por que manda, como manda", afirma que: o Estado é surgido em dois passos: "a) o estabelecimento da diferença entre governantes e governados;  b) a institucionalização dessa diferença", ou seja, "o Estado é a organização política e jurídica da sociedade, que muitas vezes, chega a se confundir com esta mesma sociedade".

  Logo, podemos concluir sem grandes dúvidas que o Estado tem, como seu principal objetivo, organizar e defender o interesse de sua sociedade. Tudo básico. No entanto, ao longo da evolução política brasileira (mais precisamente com a transição do estado monárquico para o republicano), onde passamos de uma visão que tinham sobre o povo, somente como mão-de-obra, e ganhamos maior destaque e liberdade dentro do próprio estado, sempre fomos, e continuamos sendo, brutalmente estuprados pelos nossos governantes que se aproveitaram da completa alienação e da mentalidade comodista, de grande parte da população, que, graças à isso, acabou por originar um estereótipo mais marcante e conhecido do brasileiro diante das outras nações mundo à fora. Roubos de verbas públicas, para uso próprio, ou de partidos elitistas, que eram, e são - se não me engano - totalmente independentes da sociedade como um todo, impostos absurdos pagos pela população (classe-média, ou não), apenas para que uma minúscula parte dela seja realmente investida no que foi prometido, enquanto a maioria é desviada pela maioria dos governantes e que "ninguém" sabe para onde vai esse dinheiro (sendo que a maioria dos políticos corruptos, deste país, possuem mansões, ilhas, aviões particulares e por aí vai), tirando o fato de que, tudo isso, acaba por ocasionar no descaso dessas autoridades com a situação social brasileira, ocasionando a precarização dos itens "básicos" de TODO e QUALQUER CIDADÃO, como, por exemplo, educação pública e saúde pública de qualidade, saneamento básico, uma qualidade aproveitável de mobilidade urbana, uma segurança pública merecedora de ser chamados de “segurança”, empregos de fácil alcance, mesmo para aqueles com uma péssima formação educacional, além de vários outros fatores onde somos esquecidos e ficamos calados, quietos, sem a menor reação perante isso tudo.

  Mas, o que mais me enfurece é que eles continuam com essa mesma imagem do brasileiro (como burros de carga, que só sabem trabalhar somente para o proveito do dono). Simplesmente, os anos, décadas, séculos vão passando e as usurpações dos nossos direitos só vão aumentando, às vezes, até ficar tão ridiculamente visível que acabamos por ser facilmente tachados de "preguiçoso", “alienados” e “palhaços” pelos estrangeiros. E, infelizmente está se tornando cada vez mais comum, ao redor do mundo, se ouvir: "Brasil?! Não é aquele país em que o PIB é um dos mais altos (o sexto do mundo, segundo o FMI, em sua análise de 2011), mas com tamanha desigualdade social que, seu IDH (segundo dados de 2012) está abaixo da média da América Latina, com 23,6% da população num estado financeiro lamentável, onde a miséria atinge um brasileiro a cada grupo de dez e onde a massa populacional nada faz para mudar isso?! Para mim, são um bando de selvagens."

  Claro, que nos tornamos selvagens, com todo esse ‘vandalismo’ a que somos submetidos. Sem contar, ainda, com a incrível ajudinha que as grandes empresas midiáticas tem concebido aos partidos ou aos poderios políticos - em troca de uns "lucrozinhos" ou fatores que levem ao benefício das grandes famílias que controlam as gigantescas mídias - com seu controle de massa e sua facilidade na manipulação de notícias e informações, e que tanto engana e aliena grande parte dos cidadãos brasileiros desinformados.
  E foi por este motivo - e não tenho o acanhamento de dizer - que fiquei extremamente surpreso ao me deparar com uma fantástica onda de protestos que, ao se aproveitarem da Copa das Confederações que ocorreu aqui no país este ano, quebrando alguns monumentos e ônibus - que sempre acontece em qualquer tipo manifestações - para demonstrar a insatisfação social, acabaram por mobilizar o Brasil e o mundo para a verdadeira situação social e política aqui praticada. Mas, para mim, o mais engraçado foi ver a contradição com que o sistema capitalista sofreu com esse movimento, uma vez que, diferente de qualquer outro protesto de mesmo porte (influenciados muitas vezes pela própria mídia, ou pela própria força militar, como foi o caso da ditadura), este foi diferente, foi totalmente originado e incentivado pelo próprio povo nas redes sociais, na internet - um meio de comunicação criado, também, para se dificultar a interação externa das pessoas, mas que acabou arrastando e levando uma grande massa à lutar por seus direitos - o que deixou os governantes extremamente confusos e sem a menor idéia de como reagir à tudo isso.

  O movimento em si, foi demarcado por duas fases, com caracteríticas distintas entre elas, mas ambas organizadas online.

  1#: A primeira fase, que foi demarcada pelo estopim da revolta, causado pelo aumento dos preços da tarifa dos transportes públicos na principais cidades do país, onde começou toda a mobilização, como São Paulo e Rio de Janeiro, que teve um aumento de  R$ 0,20 nas tarifas dos ônibus, e que começou a tomar corpo nos dias 6, 7 e 11 de junho.

  Vimo uma completa falta de apoio e aprovação por parte das grandes mídias nacionais, pouca participação popular, uma mobilização organizada, principalmente pelo MPL (Movimento Passe Livre), com um foco único de solucionar antigos e novos problemas nos meios de transporte dessas mesmas cidades, além de muitos conflitos violentos entre policiais e manifestantes (que talvez tenha sido uma das características mais importantes, uma vez que, o excesso de violência exercida pela polícia, extremamente mal treinadas para ocasiões como essa, acabou por atrair, paradoxalmente, mais manifestantes às ruas) que resultou em vários manifestantes, e alguns policiais, feridos. Graças a esta postura, a mídia resolveu noticiar sobre, o que eles classificaram como vandalismo ou, numa escala mais séria, terrorismo. Como resposta da insatisfação popular perante a excedente represália policial e com a manipulação com que os meios televisivos noticiavam o ocorrido, dia 13 de junho os protestos se espalharam para mais cidades ao redor do país, acarretando num maior confronto entre a CHOQUE, PM's e manifestantes e que, por sua vez, diretamente proporcional ao nº de protestos, à um maior numero de manifestantes detidos e feridos, além de próprios jornalistas da imprensa (que gradualmente mudaram o discurso, e começaram a atacar a postura policial praticada).

  Neste período mais de 300 pessoas foram detidas, aproximadamente 1/3 foram "detidas para averiguação" - prática comum em ditaduras - já que não houve flagrantes, e pior ainda, outros detidos por portar vinagre (?!), que estavam sendo usados como meios de proteção ao gás lacrimogênio e ao spray de pimenta atirado pelos policias. (UM VERDADEIRO ABSURDO!!)

  E, como era de se esperar, tudo isso levou a um clima de "vamos colocar na mesa tudo com o que estamos insatisfeitos", e com isso uma escalada direta para a “segunda fase” do movimento começou.

  2#: Já, na segunda fase dos protestos é que a bomba-relógio realmente explode - por assim dizer - as manifestações são majoritariamente pacíficas, com grande cobertura midiática apoiando (não só do Brasil, mas de todo o mundo), massiva participação popular, abatimento do foco dos transportes públicos, e com isso, a perda da liderança do MPL no movimento, além de uma posição de repúdio à presenças de bandeiras de partidos políticos nas manifestações e novas exigências sendo colocadas em pauta, como a anulação das PEC' 33 e 37, "cura" gay, ato médico, maior investimento na educação, excessivos gasto com as Copas das Confederações da FIFA de 2013 (onde foi registrados manifestações, com a principal intenção de impedir o tráfego ou chamar a atenção da imprensa mundial durante os jogos ocorridos durante esse tempo), com a Copa do Mundo FIFA 2014, reforma política e mais outras diversas insatisfações que estavam "presas na garganta" da população, e que nunca tiveram uma oportunidade de se soltar... até agora.

  No dia 20 de junho, houve um pico de, um pouco mais de 1,4 milhões de pessoas nas ruas em mais de 120 cidades pelo Brasil. Todo esse efeito dominó, que extraordinariamente levou os governantes à repensarem em suas atitudes e que, para uma tentativa, talvez, de se amenizar a situação, apoiaram e aprovaram várias das pautas abordadas pela população, como a anulação da PEC 37, a promessa da presidente Dilma Rusself - em rede nacional, vale ressaltar - do direcionamento de 100% dos royaltes do petróleo para a educação, da aprovação da lei que transforma corrupção em crime hediondo, entre vários outros que, acredito, ainda estão por vim.

  Sei que me prolonguei bem mais do que eu esperava para redigir esse texto, mas achei justo que, diante de um salto tão grande na nossa democracia brasileira e na guerra contra a corrupção, ele merecia um texto à altura dessa grande vitória do povo nas ruas.

  Isso só demonstra que, mesmo disfarçadamente, ainda vivemos numa democracia, onde o poder está na mão exclusivamente do povo.

  No entanto, eis que alerto, dizendo: A GUERRA AINDA NÃO ACABOU!! Vencemos a batalha, mas a guerra vamos ver... e por esta mesma razão peço que, mesmo com o enfraquecimento da onda das revoltas populares, continuemos a nos mostrar antenados, nos mostrar dispostos a não voltarmos a nossa comodidade, ao nosso silêncio, que antes tanto perpetrou o estrago, dos nossos direitos. 

  E que venha mais batalhas, porque eu sinto - e me arrepiando, eu digo - que o povo tem o poder, que ele está quase em seu total descobrimento, seu autoconhecimento da gigantesca capacidade dele de virar esse jogo que, antes, era tão diferenciado.

Abraços,


              G.M.F.

sábado, 29 de junho de 2013

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não saber sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
preferiram (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

- Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 9 de maio de 2013

MAIS UMA NOITE...

      E abri os olhos. Tentei me levantar ao notar que não me encontrava em minha cama no meu ambiente de costume, sentia que não me encontrava no meu pequeno quarto de hotel sujo, desarrumado e negligenciado pelas excedentes farras e destruições vivenciadas por ele nesses últimos meses. Um acanhado feixe de luz atravessou a janela e me cegou. Mas afinal, onde eu estava?

    Me virei em direção ao criado-mudo e tentei apanhar meus óculos, para que pudesse explorar atentamente o local em que me encontrava. Não que já não tivesse me acostumado com minhas corriqueiras alternâncias de leitos, não durava mais do que uma semana em uma mesma cama, no entanto, não me lembrava de como, ou quando, tinha chegado até ali. Passei a mão pelo móvel, do lado de onde estava deitado, e não encontrei minhas lentes.

 - Mas que inferno! - esbravejei.
    Neste momento senti um movimento nos lençóis ao meu lado, virei-me assustado com a repentina agitação e me deparei com um cândido e primoroso corpo, sinuoso e, de tal forma, oculto pelas cobertas que não o tinha notado antes.
- Ei, acorde! Cê viu meus óculos? - Perguntei, na curiosidade de constatar a quem eu dei meu amor noite passada.


     A dona do corpo acordou, se mexeu e tentou sentar.
- Sei lá, não me lembro de nenhum binóculo não, rapaz. - Falou arrastado, com a frequente voz sonolenta que possuímos ao acordar.
- Não, binóculos não, falei óculos. - Resmunguei.
    Mas nesse momento ela virou e pude captar com quem estava tendo aquela conversa.
- Clarice, mas...  O que estás fazendo aqui, mulher?
- Te encontrei ontem à noite vagando pelas ruas do rio vermelho, cantando e tropeçando pela calçada. E devo dizer... sua lábia, mesmo durante aquele estado de embriaguez, continuava certeira como sempre - Confessou, abrindo a brecha daquele sorriso ingênuo, mas com um leve toque de safadeza, que tanto a caracterizava.
- Contudo, infelizmente devo dizer que não é o suficiente para não pagar, mas farei um preçozinho camaradinha pra você, R$80,00. Pode passá pá cá.
    Levantei, achei meus óculos, abri a carteira e tirei uma nota de R$100.
- Tem troco? - Perguntei, torcendo para que sim.
- Não - Disse, enquanto arrebatava a nota da minha mão - Parece que ficarei te devendo um favorzinho, não?! - E me dirigiu uma piscadela.
- Parece que sim, não tem outro jeito, tem?! - Respondi, já cansado daquele papo.
- Não mesmo - Gracejou, enquanto se vestia e se dirigia para aquela descaída porta, daquele fodido hotel, que sabia que se encontrava em algum dos bairros populares da cidade de Salvador.
- Tá, tanto faz... Só sei que acabei de perder meu dinheiro - Pensei alto. Fui até a bancada, apanhei um copo, o preenchi com Uísque que achei no chão, do lado da mesa de jantar e sentei na beirada da cama, apoiando o copo na mobília. Peguei meu maço, acendi um cigarro e voltei a dormir.
- G.F.

9 de maio de 2013

   É, chega a ser até levianamente engraçado. James não tinha o mínimo apreço pelo seu cárcere escolar, não tinha formado nenhum julgamento específico para tal cólera, apenas sentia. Nunca teve muitos motivos concretos para reclamar de sua sacramental vida de colegial, nunca teve genuinamente problemas para se enturmar ou para cativar os colegas, pois os efetuava com jurisdição e contentamento, já que não gostava de se encontrar sozinho com seus pensamentos, pois tinha medo de se negar a querer sair daquele plano. Todavia, talvez não fosse o ambiente que lhe abominasse tanto, mas sim a notável demência à qual, maiores partes dos jovens, lá encontrados, exerciam. Ele sentia que não poderia pertencer a toda aquela burocracia, um ambiente fortemente movido pelo status e pela beleza, formado por um amplo sistema de homogeneização a qual não importava o que você seria capaz de fazer, contanto que consiga uma estabilidade econômica na vida. Sempre fazendo, ou querendo fazer, as mesmas coisas, com as mesmas pessoas, tinham perdido a coragem, tinham sido absorvidas suas autópsias. Graças ao fomento e devoção de sua amada mãe, desde cedo tinha um excêntrico gosto pelo saber, mesmo que muitas vezes esse elevado gosto tenha sido sufocado pela obrigatoriedade dessas ações, tinha um apego pela leitura e escrita, pela verbosidade, um fanatismo quase caricatural pelo distinto, o obrigando a ter uma enorme repulsa de toda aquela repetição exacerbada  Sentia que não era aquilo que o inatingível universo preparara para ele, que não era por aquela razão que estava no mundo e que perdeu sua viagem até ali. Só sentia que podia fazer mais, mais por si e pelo coletivo. Afinal, viviam perguntando para ele a onde ele queria chegar, mas se tinha tantos caminhos na vida, e pouquíssimo tempo no ar. Jogou tudo para o alto e foi à luta!

- G.F.

terça-feira, 16 de abril de 2013

MEU MUNDO UM POUCO PSICODÉLICO!!

O que te leva a crer que somos as únicas vidas inteligentes no universo?
O que te leva a crer que dentre todos os barcos verdes sobre os rios púrpuros do NEGRO universo não existe sereias? Papai Noel? Anjos?
Pois se encontra muito equivocado se crê em sua competência mortal. Enquanto procura-se uma garota com pés de amora, te gritam. 
Feixes de luz marmelada e safira fogem de sua cabeça quando se vira lentamente e leva, sem medo, todo o psicodelismo do ar. 
Mas cadê a pobre menina, aquela cujos cabelos eram beijados pela lua, a menina cujos olhos lembravam rubis, dançando ao longo de minha visão. 
Quem se escapuliu de meus toques e foi para casa?! 
Está sim em casa, pegou uma carona no ombro dos unicórnios, acompanhado dos ciclopes, e foi para cima daquele arco-íris.
Para cima do arco-íris dos duendes.

- G.F.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

REFLEXO

  Porque somos as sua criação. Somos seus frutos que deixou deteriorar. Somos a escola que não foi arquitetada. Somos a negrume da sua preocupação, a restrição da justiça para essa franzina minoria. Somos apelidados de vários adjetivos: "Sem-teto", "Vagabundo", "Folgado", "Ladrão"; "Pivete", "Escória", entre diversos outros. Deploráveis marginais que o usa como uma resposta da sua ausência de abnegação, assim como a teoria de ação e reação de Newton. Não procure responsáveis pelo seu desacerto, apenas se encare no espelho. Isso não foi nossa culpa, não somos responsáveis pelos nossos insensatos atos. Somos movidos à oportunidades, pois há um incêndio em pleno mar. E tudo só depende de vossa graça, mas nem à isso pensou em convir.

- G.M.F.

terça-feira, 2 de abril de 2013

À LUTA, JUVENTUDE!

Porque esse é a principal atribuição da juventude. A função de desconfiar, de indagar e de combater a completa ditadura psíquica a qual os adultos nos submetem, com suas regras e padrões secos e quebráveis. Quando crianças, possuíamos o privilégio de poder ver o encanto da existência e a alegria de ser você mesmo. Toda via, os mais velhos se esqueceram como é bela e ousada a vida, simplesmente perderam a esperança. Criaram normas, leis e preceitos apenas para nos tornar marionetes, usados para seu vil prazer. Bonecos sem emoção, que são adestrados para a demência, para competição, para a alienação e para a escassez de emoção, dos momentos vividos em suas desvalidas vidas. É assim que querem viver? Nós jovens temos a capacidade de virar o jogo, de se opor a tudo isso, então vamos à luta! Vamos pelejar pelo o que é nosso. Viva a vida!!
- Geovane M. Filho

quarta-feira, 27 de março de 2013

MEU CORCEL AZUL...

   Eu possuía um corcel azul em meu peito. Que obstinado em sair, em se abjugar desse corpo que não lhe-servia, coiceava meu coração e minha consciência. Já eu em, todavia, fazia de tudo para sustentá-lo lá dentro. Despejava-lhe calúnias e paradigmas, enquanto ele repelia com autenticidades e incertezas. Até que um dia, fraco demais, o-deixei sair. Correu autônomo, enquanto eu o seguia com os olhos, querendo saber para onde ele iria. Quem ele optaria para sua incumbência?! Contudo, ele voltou e estagnou em meu crânio. Foi então que percebi que era a mim que ele cobiçava, e aceitei. Hoje posso dizer que sou um humilde indivíduo com uma pequena vaidade para ser filósofo. Ou, quem sabe, sou só um cidadão cansado de presenciar tamanha tirania e abuso desse corpo social, que antes eu tentava mascarar. Sou apenas um jovem escritor, com perspectivas de independência, que se deixou levar pelo seu corcel famélico por justiça e sedento por igualdade, um jovem sujeito que tem toda a capacidade de alterar essa colocação, e está sentenciado a fazê-la, ou tentar. Mas não posso fazê-lo desacompanhado. Por tal razão, à todos tenho uma enunciação: Livrar-se dessas rédeas a que estão presos e não tenham a fraqueza de abnegar dessa situação catastróficas a qual nascemos estabelecidos

- Geovane M. Filho

segunda-feira, 25 de março de 2013

ACHAVA QUE ERA ÓDIO...

E eu achava que era ódio. O que eu sentia pela maioria das pessoas não era somente uma antipatia, mas sim um sentimento muito mais pleno que tomava conta de mim. Era uma aversão à todos esses depravados seres humanos, sem exceção, nem regalia. Mais aí você se mostrou a mim como uma irrelevante fatalidade de um extremo choque de cordialidade. Seus cabelos formado por delicados caracóis castanhos, que formam um aliciante arranjo com seu sorriso gracioso e ingênuo, me mostraram que ainda poderia apreciar alguem nessa abominável sociedade. Você me fez imaginar, só de estar com você, em conhecer os anjos do mais longíquo céu, e os dêmonios na minha mais profunda escuridão psíquica. Pudia sentir uma extrema sensação de puro êxtase, mas tambem uma perdurável desesperança de que algum dia eu poderia dispor de teu amor. E assim eu durava, sem saber como me explanar, mas querendo conceder minhas entranhas para você estabelecer o que desejar.
- Geovane M. Filho

sexta-feira, 22 de março de 2013

     Eram três e meia de uma madrugada cinzenta e fria, parecia que ia chover. Tinha acabado de sair de um boteco, após uma noite com minha namorada Bárbara, uma garota de cabelos longos loiros e olhos cor de mel. A-conheci na faculdade de jornalismo e agora nós já estávamos comemorando três anos de namoro, com direito a várias brigas, xingamentos e ameaças de abandono, mas estava dando tudo certo nesses últimos meses e era, basicamente, a isso que estávamos comemorando.
  Embora bêbado, peguei meu medíocre carro celta de duas portas, para deixar “minha” garota em casa.
- Vamos, entre! – Chamei, tentando não demonstrar o tamanho do estado da minha embriaguez.
- Não precisa se preocupar com isso, anda, você bebeu, deixe seu carro aqui e vamos de táxi. – Ela sugeriu, torcendo para que eu aceitasse.
- Nada disso, não bebi mais do que três copos de cerveja, estou ótimo, entre aí. –       Insisti, nunca fui de perder batalhas tão fácil assim. Ela suspirou, derrotada. Entrou, colocou o cinto e partimos em direção a sua casa.
No caminho, na orla do farol da cidade, um senhor, cabelos e barba brancos, pele morena, magro e dono de um olhar sonhador, vestido com trapos e com um cachorro Boxer o-acompanhando, se encontravam sentados em um ponto de ônibus, olhando para a rua parecendo esperar aquele maldito coletivo que não chegava.
- Querido, vamos dar carona a esse sujeito? – Bárbara sempre teve esse incrível amor ao próximo e um coração enorme, talvez tenha sido uma das características que mais me conquistaram, são completamente o oposto de mim.
- Não mesmo, não sabemos o que ele pode fazer, não é?! – Rebati, não estava com cabeça para aquele papo sentimental, estava com sono e queria ir logo para minha cama quente.
- Então, pelo menos, me deixe avisá-lo que ônibus nenhum passa nesse horário da madrugada. – Pediu.
Mesmo contrariado, diminui a velocidade e paramos em frente ao ponto.
- Ei amigo, são três e meia da manhã, nenhum coletivo passa nesse horário. – Avisou Bárbara ao estranho, abaixando o vidro.
- Já são três e meia?! Pensei ser meia-noite ainda. – E riu, descontraído e leve, como se não ligasse para o detalhe de ficar naquele ponto até o dia amanhecer.
- Você mora onde? Aceita uma carona? – Perguntou minha namorada, mesmo com minhas cotoveladas de rejeição e aviso.
-Claro, mas só se não for incomodo para o cavalheiro que está na direção – Disse o desconhecido, apontando para mim e dando um sorriso com seus dentes amarelos.
- Sem problema nenhum, pode entrar – Respondeu Bá em meu lugar, não me dando nenhuma oportunidade de tentar me livrar daquela situação.
Ele levantou-se com gemidos e resmungos e entrou no carro.
- Vamos rapaz! – Gritou ele, chamando o cão para entrar também. Ajeitou-se no banco de trás com e seu bicho de estimação e partimos.
Demoramos cerca de uma hora para alcançar a casa da afetuosa Bárbara, e nesse tempo ela só fez conversar com o mendigo, que dizia se chamar Bob.
- E este aqui se chama Darwin – O apresentou, acariciando a cabeça do boxer.
- Gostei do nome, porque escolheu esse? – Perguntou minha garota curiosa.
- Ele foi o mais forte, digamos assim, adaptado para a sobrevivência. Foi o único cão que sobreviveu em um incêndio no seu antigo canil. – Respondeu.
E este foi o ponto chave da conversa até a porta do prédio dela. Parei, desliguei o carro, ela se despediu de mim e dos seus novos amigos e entrou.
- Muito bem, já que não posso te colocar para fora porque isso só faria minha namorada arrancar minha cabeça, vamos para onde agora? – Perguntei.
- Já que estamos perto, é só me deixar perto da saída da cidade e está liberado – Disse, rindo e voltando a acariciar o cachorro.
Voltei a ligar o carro e acelerei. Queria chegar logo em casa e não tinha tempo a perder. Sinceramente, não sei o que aconteceu nos minutos seguintes, estava tão atordoado de cansaço que não ouvia sobre o que aquele mendigo falava comigo.
- Gosta de cães? – Perguntou Bob, acredito que, para tentar puxar assunto.
- Não mesmo, eles me irritam. – Rebati, sem prestar muita atenção na conversa.
- Ora, porque odiá-los? Eles são mais puros e solidários do que nós, isso eu garanto. – Respondeu um pouco magoado.
- É, pode ser.
Ficamos calados o resto do percurso inteiro. Só notei que chegamos aos limites da cidade quando ele me pediu que parasse, dizendo que já estava ótimo e me agradecendo pela carona.
 - Claro, claro, nada demais. – Foi tudo o que consegui responder antes de sentir um grande baque na traseira do veículo e de ser jogado para frente, batendo meu nariz e queixo no volante, desmaiando, ficando pendurado somente pelo cinto, sentindo o carro dar cambalhotas e rodopios pelo ar, parando de cabeça para baixo no meio-fio.
Não sei por quanto tempo fiquei inconsciente. Acordei ainda atordoado com o que tinha acontecido. Uma batida? Um acidente? Não consegui perceber de imediato. Tentei visualizar algum outro carro na pista. Não havia nenhum.
- Algum filho da puta bateu em meu carro e fugiu, desgraçado! – Praguejei, tentando me soltar.
No entanto, comecei a sentir um odor estranho, mas conhecido, um maldito cheiro que fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem, e com que eu não conseguisse me mover até assimilar o que ocorria. Gasolina.
Tentei me soltar freneticamente, sangrando, fraco demais, estava derrotado. A primeira explosão ocorreu, espalhando adrenalina, terror e cacos de vidro por todos os lados. Gritei. E como resposta, ouvi um longínquo gemido de ajuda. Virei-me e vi o mendigo Bob caído no banco traseiro com uma gigantesca haste de metal cravada em sua cintura.
- Meu Deus, temos que sair daqui, droga, consegue se levantar? – Gritei desesperado.
Outra explosão. Segundo os meus cálculos, a próxima explosão seria a maior, pois seria quando o fogo iria encontrar o motor e a gasolina, e não tínhamos tempo.
- Corra, ande, corra! – Gritou Bob, suplicando.
- De jeito nenhum, não irei sair daqui enquanto você estiver.
- Anda, deixa de ser burro. Darwin leve-o para fora, agora! – Gritou ele para o assustado cachorro, e tudo o que ele podia fazer era obedecer.
O gigantesco Boxer veio em minha direção e cortou o cinto de segurança com seus dentes de navalha velhos e desgastados, me puxando, com boca, pela minha gola da camisa e me arrastando para fora daquela confusão de cacos, fogo e gritaria. Assim que alcancei um lugar seguro, a última explosão veio, com toda a sua imensidão e fúria.
O infeliz cão correu para os destroços atrás de seu dono, cheirando, cavando, procurando. Depois de longos vinte minutos de procura e agonia começou a chover, ele se deitou e não se moveu mais. Levantei com dificuldade, fui até ele, me sentei e comecei a chorar.
 -  Venha Darwin! – Disse, enxugando meus olhos na manga da camisa, acariciando o cão e me levantando. – Vamos para casa.


- Geovane M. Filho