sexta-feira, 22 de março de 2013

     Eram três e meia de uma madrugada cinzenta e fria, parecia que ia chover. Tinha acabado de sair de um boteco, após uma noite com minha namorada Bárbara, uma garota de cabelos longos loiros e olhos cor de mel. A-conheci na faculdade de jornalismo e agora nós já estávamos comemorando três anos de namoro, com direito a várias brigas, xingamentos e ameaças de abandono, mas estava dando tudo certo nesses últimos meses e era, basicamente, a isso que estávamos comemorando.
  Embora bêbado, peguei meu medíocre carro celta de duas portas, para deixar “minha” garota em casa.
- Vamos, entre! – Chamei, tentando não demonstrar o tamanho do estado da minha embriaguez.
- Não precisa se preocupar com isso, anda, você bebeu, deixe seu carro aqui e vamos de táxi. – Ela sugeriu, torcendo para que eu aceitasse.
- Nada disso, não bebi mais do que três copos de cerveja, estou ótimo, entre aí. –       Insisti, nunca fui de perder batalhas tão fácil assim. Ela suspirou, derrotada. Entrou, colocou o cinto e partimos em direção a sua casa.
No caminho, na orla do farol da cidade, um senhor, cabelos e barba brancos, pele morena, magro e dono de um olhar sonhador, vestido com trapos e com um cachorro Boxer o-acompanhando, se encontravam sentados em um ponto de ônibus, olhando para a rua parecendo esperar aquele maldito coletivo que não chegava.
- Querido, vamos dar carona a esse sujeito? – Bárbara sempre teve esse incrível amor ao próximo e um coração enorme, talvez tenha sido uma das características que mais me conquistaram, são completamente o oposto de mim.
- Não mesmo, não sabemos o que ele pode fazer, não é?! – Rebati, não estava com cabeça para aquele papo sentimental, estava com sono e queria ir logo para minha cama quente.
- Então, pelo menos, me deixe avisá-lo que ônibus nenhum passa nesse horário da madrugada. – Pediu.
Mesmo contrariado, diminui a velocidade e paramos em frente ao ponto.
- Ei amigo, são três e meia da manhã, nenhum coletivo passa nesse horário. – Avisou Bárbara ao estranho, abaixando o vidro.
- Já são três e meia?! Pensei ser meia-noite ainda. – E riu, descontraído e leve, como se não ligasse para o detalhe de ficar naquele ponto até o dia amanhecer.
- Você mora onde? Aceita uma carona? – Perguntou minha namorada, mesmo com minhas cotoveladas de rejeição e aviso.
-Claro, mas só se não for incomodo para o cavalheiro que está na direção – Disse o desconhecido, apontando para mim e dando um sorriso com seus dentes amarelos.
- Sem problema nenhum, pode entrar – Respondeu Bá em meu lugar, não me dando nenhuma oportunidade de tentar me livrar daquela situação.
Ele levantou-se com gemidos e resmungos e entrou no carro.
- Vamos rapaz! – Gritou ele, chamando o cão para entrar também. Ajeitou-se no banco de trás com e seu bicho de estimação e partimos.
Demoramos cerca de uma hora para alcançar a casa da afetuosa Bárbara, e nesse tempo ela só fez conversar com o mendigo, que dizia se chamar Bob.
- E este aqui se chama Darwin – O apresentou, acariciando a cabeça do boxer.
- Gostei do nome, porque escolheu esse? – Perguntou minha garota curiosa.
- Ele foi o mais forte, digamos assim, adaptado para a sobrevivência. Foi o único cão que sobreviveu em um incêndio no seu antigo canil. – Respondeu.
E este foi o ponto chave da conversa até a porta do prédio dela. Parei, desliguei o carro, ela se despediu de mim e dos seus novos amigos e entrou.
- Muito bem, já que não posso te colocar para fora porque isso só faria minha namorada arrancar minha cabeça, vamos para onde agora? – Perguntei.
- Já que estamos perto, é só me deixar perto da saída da cidade e está liberado – Disse, rindo e voltando a acariciar o cachorro.
Voltei a ligar o carro e acelerei. Queria chegar logo em casa e não tinha tempo a perder. Sinceramente, não sei o que aconteceu nos minutos seguintes, estava tão atordoado de cansaço que não ouvia sobre o que aquele mendigo falava comigo.
- Gosta de cães? – Perguntou Bob, acredito que, para tentar puxar assunto.
- Não mesmo, eles me irritam. – Rebati, sem prestar muita atenção na conversa.
- Ora, porque odiá-los? Eles são mais puros e solidários do que nós, isso eu garanto. – Respondeu um pouco magoado.
- É, pode ser.
Ficamos calados o resto do percurso inteiro. Só notei que chegamos aos limites da cidade quando ele me pediu que parasse, dizendo que já estava ótimo e me agradecendo pela carona.
 - Claro, claro, nada demais. – Foi tudo o que consegui responder antes de sentir um grande baque na traseira do veículo e de ser jogado para frente, batendo meu nariz e queixo no volante, desmaiando, ficando pendurado somente pelo cinto, sentindo o carro dar cambalhotas e rodopios pelo ar, parando de cabeça para baixo no meio-fio.
Não sei por quanto tempo fiquei inconsciente. Acordei ainda atordoado com o que tinha acontecido. Uma batida? Um acidente? Não consegui perceber de imediato. Tentei visualizar algum outro carro na pista. Não havia nenhum.
- Algum filho da puta bateu em meu carro e fugiu, desgraçado! – Praguejei, tentando me soltar.
No entanto, comecei a sentir um odor estranho, mas conhecido, um maldito cheiro que fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem, e com que eu não conseguisse me mover até assimilar o que ocorria. Gasolina.
Tentei me soltar freneticamente, sangrando, fraco demais, estava derrotado. A primeira explosão ocorreu, espalhando adrenalina, terror e cacos de vidro por todos os lados. Gritei. E como resposta, ouvi um longínquo gemido de ajuda. Virei-me e vi o mendigo Bob caído no banco traseiro com uma gigantesca haste de metal cravada em sua cintura.
- Meu Deus, temos que sair daqui, droga, consegue se levantar? – Gritei desesperado.
Outra explosão. Segundo os meus cálculos, a próxima explosão seria a maior, pois seria quando o fogo iria encontrar o motor e a gasolina, e não tínhamos tempo.
- Corra, ande, corra! – Gritou Bob, suplicando.
- De jeito nenhum, não irei sair daqui enquanto você estiver.
- Anda, deixa de ser burro. Darwin leve-o para fora, agora! – Gritou ele para o assustado cachorro, e tudo o que ele podia fazer era obedecer.
O gigantesco Boxer veio em minha direção e cortou o cinto de segurança com seus dentes de navalha velhos e desgastados, me puxando, com boca, pela minha gola da camisa e me arrastando para fora daquela confusão de cacos, fogo e gritaria. Assim que alcancei um lugar seguro, a última explosão veio, com toda a sua imensidão e fúria.
O infeliz cão correu para os destroços atrás de seu dono, cheirando, cavando, procurando. Depois de longos vinte minutos de procura e agonia começou a chover, ele se deitou e não se moveu mais. Levantei com dificuldade, fui até ele, me sentei e comecei a chorar.
 -  Venha Darwin! – Disse, enxugando meus olhos na manga da camisa, acariciando o cão e me levantando. – Vamos para casa.


- Geovane M. Filho

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