sexta-feira, 11 de outubro de 2013

UNIDOS PELO AMOR, SEPARADOS PELO DESTINO


-Que data é hoje, amigo? - Perguntou o jovem ao seu colega de trabalho.
- 19 de agosto - Respondeu, num mero grunhido, tentando se ajeitar no banco para voltar a dormir.
- Que noite, hein?! - Observou o jovem sentado em um velho banco de plástico, fumando o seu terceiro cigarro do dia e olhando para as estrelas que estavam despontando daquele céu lindamente limpo e negro.
- Pois é, bem estrelado - Respondeu com um sussurro sonolento, quase automático.
  No entanto, não conseguiu aproveitar por muito mais tempo a sua visão daquela obra da natureza, pois logo visualizou um veículo que surgia no início da ruazinha que eu se encontrava e que, por razão de um restaurante ali perto, estava sempre cheia de carros e nunca com uma vaga disponível. 
  O carro precisava do seu auxílio para estacionar - sim, ele "trabalhava" com isso -, apagou o cigarro, e correu para ajudá-lo.
- Pode estacionar aqui chefia, eu fico olhando - Gritou para o coroa que estava dirigindo. Um senhor de meia-idade, cabelos grisalhos, pele avermelhada nas regiões das bochechas e um enorme óculos quase despencando da ponta de seu grande e gordo nariz.
  Ele não pareceu muito convencido, e após o ver emergindo das sombras - um negro, maltrapilho, imundo e malcheiroso - correndo, tentando chamar sua atenção, não pensou duas vezes: Pisou fundo!
- Maldito filho da puta! - Gritou, em resposta ao som do motor do carro. - Hoje, com certeza, não é meu dia de sorte - Praguejou, chutando uma lata no meio fio e fazendo o caminho de volta para o seu velho banquinho.
  Porém, algo o deteve. Não sei dizer o que, mas o obrigou a levantar a cabeça e se deparar com algo que nunca pensou que veria em vida. Um puro anjo, em sua forma personificada e completa - uma obra tão apolínea em sua áurea e, simultaneamente, dionisíaca em seu estilo provocante de andar - que não acreditou se tratar de uma mortal.
  Um querubim encarnado na forma humana fraca e mortal. Seus olhos brilhavam como lagos, com toda sua poesia e seus lisos cabelos ruivos, como as chamas da paixão;
   Entretanto, notou um pequeno objeto reluzindo em seu pulso: um Rolex. Foi a partir daí que se tocou por quem tinha, perdidamente, se apaixonado.
- É, isso vai ser um problema - sussurrou.
  No entanto, num lampejo de coragem e idiotice, puxou um pouco de ar para seus pulmões trêmulos - com a provável probabilidade de um contato direto com a tão bela e sonhada "alienígena", um outro ser, de um universo completamente contrário ao dele: o mundo dos condomínios de luxo e piscinas de hidro massagem - e atravessou a rua atrás da sua - possível - "cara-metade".
- Olá, a senhorita gostaria de alguma ajuda? - Perguntou ele, timidamente, com sua nítida voz grossa e saliente estremecida e abalada.
- Claro, você trabalha aqui, né?! Onde está seu uniforme? - Perguntou ela, lançando um olhar tão meticuloso para ele, que o mesmo se encolheu, imaginando se ela conseguiria enxergar sua alma.
- Não moça, só queria ajudar.
- Ah, então será que você pode me fazer um favor e ligar para um táxi? - Perguntou ela, voltando à encará-lo.
- Tenho telefone não, moça - Se desculpou.
- Então porque veio falar comigo? - Perguntou ela.
- Só gostaria de falar para a encantadora dama que, quando a mesma passou, eu, um humilde trabalhador, não consegui comandar meus pensamentos para com a sua pessoa e com muito prazer venho lhe dizer que, com os meus mais sinceros sentimentos nesta noite auspiciosa, nunca encontrei e, muito provavelmente, nunca irei encontrar uma beleza tão excepcional como a sua, de seu lindo movimento que faz com o pescoço quando caminha tão sutilmente que parece que possui a flutuação como um de seus dons.
- Puxa, isso vindo de uma pessoa que mal conheço não deixa de ser tocante - Declarou, com as sobrancelhas arqueadas em total espanto. 
- Que não seja por isso, me chamo Alexandre Silva. Agora, acredito que mereço uma recompensa. - Cochicha ele, a olhando nos olhos para ver se ela era de verdade.
- Que recompensa?
- Seu nome.
- Ah, me chamo Clarisse Chevalier - Respondeu ela, com o olhar direcionado para o chão e uma pequena coloração avermelhada em sua face.
- É francês? - Perguntou ele, somente para puxar papo.
- Sim, meus avôs eram franceses e morei lá durante minha infância - Respondeu ela, num leve sussurro, com os olhos encarando o mesmo lugar do chão de antes.
- Então, é um prazer conhecê-la Mademoiselle Clarisse - Falou, estendendo o braço e se inclinando para beijar aquela macia mão da envergonhada jovem.
  A súbita vergonha por parte da senhorita Clarisse, não poderia ter causado um efeito maior de conforto e incomodo no pobre Alexandre, ao perceber que, mesmo que por fora ela passe uma imagem de autoridade e controle, introspectivamente ela não é nada mais do que um mulher que - assim como todas - adoram tanto receber elogios que, às vezes, acaba não sabendo como reagir.
- Está com pressa? Estou com meu violão e algumas coca-colas e, talvez, poucas cervejas ainda no isopor, se quiser me acompanhar... - A-convidou, estendendo um braço, como um jovem cavalheiro num baile de máscaras em plena época monárquica.
- Hum... até que não vejo problema, mas como voltarei para casa sem táxi? - Perguntou ela, temerosa.
- Isso não seria problema, passa táxi aqui de cinco em cinco minutos e ,qualquer coisa, eu tenho um amigo taxista que tem seu "ponto" ali na esquina do lado daquele prédio - Falou, apontando para uma das esquinas da rua principal do bairro.
  E ela o-acompanhou, em sua livre e espontânea vontade, movida apenas pela curiosidade e fascínio por aquele homem, não muito bonito, mas bastante atraente pela sua forma de ser, sua sinceridade, sua humildade e, acima de tudo, pela coragem em abordar uma estranha em plena noite de lua cheia e poucas nuvens.
- Cerveja ou coca? - Perguntou.
- Cerveja. - Escolheu. Ele pareceu um pouco espantado pela escolha, mas nada falou, só esticou o braço agarrou o seu violão e começou a tocar com sua voz, embora grave, mas extremamente afinada e melódica, a primeira música que lhe-veio à cabeça. E a noite passou assim para eles, na "serenata", com muita conversa, goles de Brahma gelada e bastantes risadas, com apenas a lua e as árvores como plateia daquele amor que estava nascendo para ambos.
  Assim o tempo passou voando, decolando, adiantando, dando uma oportunidade ao amor. 
  Ao perceber o horário, que já tinha se passado das 3 e meia da madrugada. Clarisse levantou.
- Ah, droga! Preciso ir, são quase quatro da matina e eu preciso chegar em casa antes que meus pais acordem - Exclamou, arrumado sua roupa e jogando as suas latas em um lixo próximo.
- Tudo bem, mas não posso deixá-la ir assim, sem nenhuma lembrança minha de tu. Como poderei prometer à mim mesmo que a verei de novo?! - Perguntou ele, também se levantando e indo ao lixo, jogar suas latas.
- O que você sugere... - E, antes mesmo do término da fala, ele, rápido nos movimentos graças à malícia e a habilidade que a rua tinha lhe-proporcionado, roubou-lhe um beijo assim que a guarda da jovem abaixou.
  Foi um beijo tímido e surpreso no início  mas que logo depois foi ganhando forma, corpo, e foi se acendendo como uma pequena fogueira nas noite frias de inverno. Ela respondeu também ao inesperado afago e juntos se sentiram completos, sentiram que - durante aqueles minutos - nada mais existia, não existia o mundo externo, somente aquele momento, somente eles dois e sua troca de carícias e afetos. Mas, afinal, não é isso que chamam de amor?
E foi com uma estranha sensação que Alexandre se sentiu cada vez mais distante da jovem, como se o estivessem puxando para longe de sua dama.
- Acorda! Como você dorme no meio do trabalho, rapaz? Acorda! - Ouviu ele, assim que abriu os olhos e, ainda perturbado, se levantou e se viu no mesmo banquinho velho de plástico, no mesmo lugar e com o mesmo colega gritando em seu ouvido.
- Que data é hoje? - Perguntou, para ter a certeza de que tinha sido somente um sonho.
- 19 de agosto - Respondeu.
  "Tinha sido um sonho. Somente um sonho. Totalmente ilusório e utópico", pensou ele. "Mas, não poderia ter sido um sonho. Tinha sido tão real..."
 E foi nessa hora que ele levantou o olhar e a viu. A garota do sonho - ou destino - do outro lado da calçada, no mesmo lugar, no mesmo horário, com as mesmas roupas e acessórios e com o mesmo jeito de caminhar que o seduziu tanto.
  E sem pensar, ele saltou do banco e correu o mais rápido que conseguia um corpo que acabou de sair do estado de sonolência.
  Infelizmente, esqueceu que aquela rua era bastante movimentada, principalmente por veículos de porte, e a última coisa que ouviu foi os gritos de advertência de seu colega e a buzina do caminhão que vinha à 90 km/h. Depois de perceber tudo, só deu tempo de olhar - pela última vez - para aqueles lindos cabelos ruivos e depois... O escuro.
   Gritos, buzinas, destroços e sangue se espalharam no asfalto da rua.

- G.F.

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