segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

MIGRAÇÃO

De beijo em beijo
E de Karma em karma,
Eu digo “hello” aos meus desejos
E “hasta la vista” à quem me alarma.
Trabalho com a briga de nossas vidas
Pela nossa soltura,
Como duas andorinhas azuis,
Migrando.
Azul, pelo nosso desejo
E migrando pela nossa necessidade
E nosso gracejo,
Soltos,
Em nossa natureza.
Então vamos para o nosso verão
Em outro hemisfério, Mon Amour.
Apenas, para que possamos,
Novamente, migrar,
Sem alguma dúvida ou temor.
Colhendo novos frutos,
Fechando portas,
Mudando ciclos,
Largando rotas,
Trabalhando e vivendo
Desse nosso apego
Pelo desapego.
E em nossas características mais sacanas
E primitivas possíveis
Nos vejo sorrindo
Nesse corredor de migração.
E eu, com esse meu coração
De poeta,
Sem reboco
Nem acabamento,
Sobrevivo sem passado,
Nem ressentimento,
Desse nosso voo interior.
Nos vemos em nosso próximo verão,
Minha passarinha.
Eu sei, é uma pena...
Só não sei se de andorinha
Ou de alguma ave de rapina.
Que Ifá nos guie.
G.F.

MARGINAL

Pois, hoje em dia,
Poesia, arte,
Vadiagem e marginalidade
São sinônimos.
E entre tantos versos,
Nos coletivos e frescões
Da vida,
Dependendo de dinheiro pra ida,
A poesia se vê esquecida,
Tentando convencer o cobrador
De que vai até em cima do motor.
Passando sem ser vista.
Aliás, nem passa...
Tem que pular a catraca.
G.F.

XANGÔ CHEGARÁ

Subi na pedreira do rei
Mas lá ninguém encontrei.
Meu Deus, nos acode, Senhor!!
Pois, nesse país,
Sumiu Xangô,
E em seu lugar
Veio um impostor.
Desde que esse azul e amarelo
Viraram verde,
Oxalá vê seus filhos
Morrendo de fome e sede.
Hoje, o Vale do rio doce
Já não Vale mais nada.
Vejo Oxum chorando por seu rio morto,
Asfixiando-se com a lama tóxica,
Por conta desse mundo torto.
Onde foi parar o machado do nosso benfeitor?
Virou instrumento de lenhador?
E agora a balança da justiça
Pesa mais pro lado do investidor.
O machado do rei,
Virou o martelo de madeira
Contra o réu,
Fazendo nossos irmãos,
Por conta da cor,
Nunca mais verem o céu.
Os descendentes de Oió,
Vivem de violência, fome e opressão,
Nascendo com sangue nos olhos.
Ogum já veio e falou
Que esse senhor tudo aqui largou
Para jogar capoeira no exterior.
Mas, digo Kawó Kabiecilê para quem acha que
Justiça é feita por leis,
Obá Iná à quem tem medo de viver
E amar.
Mas, esperem...
Obá mandou avisar:
Que Xangô já, já, vai voltar.
Vem, venha Xangô,
Nos salvar de todo essa dor
E rancor.
G.F.

MEU ANJO DA GUARDA

Achei uma foto nossa hoje.

Aquela saudade que vem de mansinho
Apertou essa noite
E maltratou o peito, apertando-o.
Os soluços se entalaram
Em minha garganta,
Meu olhos marejaram
E escorreram aquela gota salgada
E imaculada.
Tu, que sempre foi tão precoce,
Cismou de ir embora cedo também,
Mas sei que foi bom procê,
Indo explorar o além.
Eu e sua mãe, chorando,
Com a esperança de que
Ainda iríamos te ver,
Me falou que agora você virou anjo,
E foi quando eu percebi que
Enquanto não te reencontro,
Com seu sorriso contente e pronto,
Vai ser como dizem:
As vezes perdemos o telhado
Pra ganhar as estrelas,
E já não bastava você me proteger
Na sua fase encarnada,
Você teve que ir embora
Pra eu ganhar um anjo da guarda.

Que Oxalá e Omulu te protejam,
Meu dourado, anjo Gabriel.
G.F.

20/10/2015

Dia do poeta:

O que é poesia?
Poesia, para mim,
São as coisas irreconhecíveis,
As verdades não ditas,
Os beijos dados
E dispensados...

É o caminhar pela cidade
E ver beleza nas rugas
De uma senhora de idade;
É ver, em um dia quente,
O sorriso, cheio de dentes,
De um catador de lixo
Após seu "Bom dia";
É você olhar o cão,
Uivar para o silêncio
Da noite e da escuridão
E saber que aquele som
É a criação animal
De uma belíssima canção.

É o observar da vida;
O viver da doce e fina
Linha de pensamento de que
Nem tudo é, somente, ilusão
Tristeza e podridão;
E de que a vida nos mostra
A cada dia sua participação,
Nos protegendo sem exigir,
Embora precise,
Nenhum tipo de gratidão.

É o sentir de tudo o que nos cerca:
Da interestelar luz do céu
À mundana terra do chão.

E abraçar à tudo!!

E o que é o poeta?

O poeta é aquele
Que consegue enxergar,
E sorrir para,
Toda essa beleza
No meio da multidão.

G.F.

CHORO DE OYÁ

E, olhando para o céu
Nublado,
Ouvi Iansã lamuriar,
Através das gotas que caiam,
Senti o céu chorar.

Vi o choro de Oyá.

Seu pranto,
Carregado de decepção
E desespero,
Para com seus filhos na terra
Que não conseguem amar.
Não sabem agradecer
O chão que pisam,
A água que vão beber
Ou a luz que os guiará.

Sua tristeza e
Mágoa puramente
Em estado aquoso
Se deixa cair no rio
Que corre para o sal do mar,
Levado por Oxum
Até Iemanjá.

E ela, entendendo esse
seu lado materno 
a pegou para,
Em seus braços,
Ninar.
E Oxum,
Com a inveja de sua carência, 
pela raiva se deixou tomar,
de um jeito que nem
Oxóssi, Logun Edé, Obá
Ou Oxalá
Pudesse acalmar...

Mas o que ela não sabe é que,
Mais raro do que é a raiva tomá-la,
É, na tristeza, sentir as gotas
E o som
do choro de Oyá.

G.F.

13/10/2015

Em homenagem ao dia do escritor.

Escrever:

O ato da criação
Da mera imaginação,
Movido pelo balançar da alma
E dos movimentos dos dedos
Da palma da mão.

"Escrever é fazer existir"

Existir o mundo,
Existir o amor,
Existir a dor,
Existir a cor,
Do fundo
De nossa alma
Preta e Branca.

Escrever é o ato mais simples,
Complicado pelo amor
Às palavras
E à vida.
E não tem coisa
Mais apaixonante,
E complexa,
Do que a poética ação
De tesão
Da escrita.

Acho que achei a definição:
Escrever é
Pura
Poesia.

G.F.

ACHAR

Não pense!!
Não começa a "achar"...
Porque o ato de "Achar",
Por mais tentador e instrutivo que seja,
Jamais poderá superar a primitiva vontade
Do "Ser".

Nesse Berçário,
De densidade,
Infinita
Dos Deuses,
Somos o resultado
dos átomos
E de todas as coisas infinitas.

Somos a perfeição
No seu grau mais
Imperfeito
Possível.
Então, vamos
De mãos dadas!

NÃO ACHE QUE É,
SEJA!!
NÃO ACHE QUE SENTE,
SINTA!!
NÃO ACHE QUE AMA,
AME!!
E NÃO ACHE QUE VIVE,
VIVA!!

Porque a vida não pode, e nem quer,
Depender da corda bamba
Desse seu "achar"

G.F.

sábado, 2 de janeiro de 2016

PAÍS-SENZALA

Na periferia ainda existe ditadura,
Violência e repreensão,
E que, para a maioria,
Os jovens são criminosos
Em formação.
E gritam pela redução da maioridade,
Pra colocarem, cada vez mais,
Jovens na prisão.
Errou ao nascer,
E a pena vai ser de morte.
Mas, e a pena de morte
Para a morte?
Pois, a favela é, para eles,
Seu próprio país
De medo, desesperança
E sangue.

E a cena se repete:
Páscoa, pão, vinho
E crucificação.
Soltem o Barrabás e
Vamos invadir o
Complexo do alemão,
Pra matar um garoto que
Segurava o caderno na mão,
E agora, caído no chão,
Vira só mais uma estatística
Em mais uma matéria do Estadão.

E só depende de onde
Querem ver nossas crianças,
Se sentados numa biblioteca
Ou sentados em suas celas.

Pois, num país de senzalas,
A paz e a justiça são privilégios
Da Casa-grande.

G.F.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

OS POETAS NÃO VÃO PARA O CÉU

Percebi que não irei para o céu.
Pois, ando ao lado das ações
E das ideias feias.
Eu me ocupo enfeitando o feio,
Até o feio seduzir o belo,
E que, dentro de teu cabelo,
Destrincho tuas mentiras meigas,
E mostro a verdade nua em pêlo.
E não irei atrás,
Desliguei a razão
Da tomada, meu bom rapaz.

Um ser irracional, como a aceitação
Do universo,
Me transformando, sempre, de cada topada
E escorregão meu em verso.
Pois, cada palavra, enfileirada em minha frente,
É um murro na ponta de uma navalha,
E que o sangramento eu, simplesmente,
Estanco em minha cara canalha.
Afinal, meu bem,
A vida é mais perigosa do que a morte,
E só conseguimos nos ver melhor
Quando nos jogamos na escuridão
Da vida e da sorte.

Eu mereço paz disso tudo,
Meu mulungo, meu bom capataz,
Paz dessa guerra de descelebrações
Que você faz.

Paz à mim,
Paz aos poetas.
Pois, os poetas não vão para o céu.

G.F.