A dor sutil e alucinante do vazio do peito, como aquela sensação frívola que nós, indulgentemente, sentimos quando, ao apoiarmos no corrimão, descemos por uma escada molhada, temendo o vazio, de cair, de se esborrachar.
Sinto-me como naqueles sonhos em que acordamos de madrugada sobressaltados por acharmos que estávamos em plena queda livre. Me sinto numa permanente queda nesse equívoco e misterioso vazio. O Completo vazio.
Ôh, maldito vazio do peito, queria eu, poder transformá-lo em um pote e enchê-lo de água,
de amor, de raiva ou, até mesmo, de mágoa, e bebê-lo todo de uma vez.
Mas não.
Não, ele é apenas mais um - enorme - vazio, dentro desse vazio da minha subsistência.
"Como renovar sem antes, primeiro, virar cinzas?"
Essa frase entranhou-se em meus pensamentos. Mas, como virar cinzas se nem me queimar eu consigo?
Observo o sol esgueirar-se para de trás do mar.
Ah, se eu pudesse simplesmente fugir, como o sol...
G.F.
Blog voltado à exposição de meus pensamentos corriqueiros. Voltado ao colhimento de sementes de pequenas idéias que brotam em minha mente, ao meu registro do mundo delimitado pela minha própria ótica e moralidade. Meu pervertido, inútil e deturpado registro. Esse meu endiabrado diário.
quinta-feira, 28 de maio de 2015
quarta-feira, 27 de maio de 2015
segunda-feira, 18 de maio de 2015
SAUDADE
Preenchido pela nostalgia dos momentos ocorridos.
Sinto a saudade pelo que podia ter vivido.
Com os dias escuros sob a luz do sol,
E a noite clara, por eu te sentir mais perto
De mim.
Na poeira, no cheiro de incenso
E no livro tenso.
A minha inspiração de loucura,
O cigano que me enciganou,
Que, do meu carma, me aliviou,
Livre por esse país da bossa e do samba.
A pessoa que, a tudo, me mostrou
E que, até hoje, me chama.
A saudade me devora
E me mastiga,
Me consome
E me instiga
A te procurar.
A saudade prevalece,
Meu eterno, mestre.
G.F.
CIDADE DOS HOMENS
"Se você morrer, o seu filho vai ser que nem a gente, cara. Vai crescer sem pai, sem família, sem amor. É isso que você quer?"
E isso foi a última coisa que eu consegui lhe dizer enquanto olhava em seus olhos, ainda pulsando vida.
Apenas para, depois, vê-lo correr para o som dos pipocos dos tiros e dos gritos de agonia dos outros boys que fecharam com o dono do morro para invadirem a quebrada.
A última coisa que eu consegui lhe dizer enquanto o coração ainda batia, sonoro. O dele, e o meu. Pois, quando ele - meu amigo, meu irmão, meu primo - morreu, meu coração também parou de bater.
Afinal, essa é a cidade do ódio. Nada mais, nada menos do que a cidade dos homens.
E saí, corri, peguei o moleque, filho dele, e o carreguei no colo. Fugi da vida que conhecia, do lugar de onde cresci, das pessoas que amava. Fui pra rua, batalhar por mim, pelo garoto e por ele que não viveu para ver o garoto crescer, nem para vê-lo jogar bola no campinho de barro.
De corpo fechado e coração esfarelado, vivo por nós.
G.F.
E isso foi a última coisa que eu consegui lhe dizer enquanto olhava em seus olhos, ainda pulsando vida.
Apenas para, depois, vê-lo correr para o som dos pipocos dos tiros e dos gritos de agonia dos outros boys que fecharam com o dono do morro para invadirem a quebrada.
A última coisa que eu consegui lhe dizer enquanto o coração ainda batia, sonoro. O dele, e o meu. Pois, quando ele - meu amigo, meu irmão, meu primo - morreu, meu coração também parou de bater.
Afinal, essa é a cidade do ódio. Nada mais, nada menos do que a cidade dos homens.
E saí, corri, peguei o moleque, filho dele, e o carreguei no colo. Fugi da vida que conhecia, do lugar de onde cresci, das pessoas que amava. Fui pra rua, batalhar por mim, pelo garoto e por ele que não viveu para ver o garoto crescer, nem para vê-lo jogar bola no campinho de barro.
De corpo fechado e coração esfarelado, vivo por nós.
G.F.
terça-feira, 5 de maio de 2015
A MELODIA DO SILÊNCIO
Quando fecho os olhos,
Presto atenção aos barulhos da noite
E ao barulho dos sonos dos outros,
Que me toca, na minha poesia ingerida.
Essa poesia que dança, distraidamente,
Esperando, apenas, ser contemplada.
Apenas seguindo a doce melodia lenta
Do piano que, se prestar atenção,
Conseguimos ouvir no vazio do silêncio.
Como uma fotografia,
Registrando tudo o que nos cerca,
Em nossa própria imensidão.
E é quando eu fecho os olhos
Que vem o silêncio da minha mente calma,
E consigo ver essa tal poesia invisível.
Uma doce melodia-silêncio, de alma.
A doce melodia do silêncio no entrelaçar dos
Olhares entre nós e uma senhora
Na fila do caixa da padaria.
A melodia do silêncio que, sensivelmente, me cala.
Do silêncio após eu acender meu cigarro,
Inalando fumaça,
Para não deixar escapar cotidianas desgraças.
Como, quando a melancolia me sequestra nos bares,
E entro em meus devaneios olhando pra a mesa ao lado,
E tentando imaginar o que os outros estão sentindo aos ares.
Onde, dentro de seus silêncios, estão suas raivas
E seus amores,
Suas decepções e seus vetores.
Do silêncio logo após um beijo apaixonado,
Da poesia lenta, da falta de barulho, um segundo antes
Do beijo entre o sol e o mar,
Banhado em escuridão e luz,
Na hora do sol se deitar.
O abraçar da noite.
Apenas ouvindo essa doce
Melodia do silêncio.
G.F.
INFERNO
E eu, como uma criança, com um tremendo espanto,
Inocentemente, olhando pra um escuro canto,
Que, de tão escuro, até a luz da vida apaga,
E onde a glória e a potência da miséria,
A cabeça da discórdia, afaga.
Onde vejo pessoas à vender esperança e Jesus,
Dizendo que, foi por nossa poupança, cartão de crédito e cifrão,
Que ele sangrou e morreu na cruz.
Para quê, assim como Fausto, possam vender sua alma ao diabo,
Passando, assim, pela cabeça daquele boy malcriado,
O triste veneno que já foi enraizado.
Esperando poder fazê-lo ver que, enquanto uns comem,
Outros não podem comprar uma cabeça de alho.
E fazê-lo desacreditar de que, em prol da sociedade, temos a gourmetização,
Onde se paga o salário de um mês por um pedaço de pão,
Mas que no final dizem que, é a arma na mão da fome
Que necessita de nossa atenção.
Como uma criança,
Embaixo do lençol, assustado,
Vendo esse mundo, de branco, se tornar acinzentado.
Mas, sabendo que trazemos, no peito, a indignação do anjo rebelado,
E que essa nossa revolta vai ser, na futuro, por um "Bom dia",
Um "Eu te amo" e um "Obrigado".
Para que, finalmente, possamos descartar essa nossa
Característica de inveja, dor e opressão,
Lembrando que, em cada ser humano há, também,
Batendo por vós, um coração.
E para que, juntos, possamos tornar
O pranto em riso
E transformar esse nosso inferno
Em paraíso.
G.F.
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