"A vida é bela e cruel despida, tão desprevenida e exata que um dia acaba."
E eu realmente não planejava beija-lo essa noite. No entanto, a melancolia a qual ele se encontrava era, de tal forma, palpável que me fui obrigado pelo meu próprio consciente a fazê-lo. Era não mais do que um mero senhor, cabelos ralos e brancos, uma pele que lembrava um couro envelhecido e flácido, com sua bengala inseparável, aposentado por problemas de saúde, filha morta, aos seis anos de idade, junto com sua esposa há quase um ano e virou um alcoólatra depressivo.
Como já disse, não estava marcado de ir vê-lo esta noite, mas para lá eu fui:
- Até que enfim você chegou - Resmungou ele, desviando sua atenção da janela e dos movimentos dos carros na rua para me ver passando pela porta.
- Não era nem para eu estar aqui Pedro - Respondi.
- NÃO ERA?! COMO ASSIM NÃO ERA?! OLHE MEU ESTADO, SERÁ QUE NINGUÉM MAIS LIGA PARA OS PROBLEMAS DOS OUTROS?! - Bradou, se levantando, com seu copo de vinho na mão e seu cigarro acesso, prestes a jogá-los em mim.
- Na verdade, não mesmo, mas estou aqui - Falei, não ligando para o copo, parando no meio da sala para analisar o ambiente. - Quando foi à última vez que você deu uma faxina nesse apartamento?
- Há quase um ano, eu preciso dizer a data também? - Retrucou ele, me encarando de tal forma que cheguei a me arrepender de ter feito uma pergunta tão estúpida.
- Você sente muito a falta delas, não é?! - Ele continuou a me fitar e, quando cogitei a possibilidade de que ele não fosse me responder, o rubor em seu rosto diminui e ele voltou a se sentar.
- Mais do que imagina - Confessou ele com princípio de lágrimas nos olhos - Mas você deveria saber, não?! -
Notei seu estado e me aproximei para tentar reconfortá-lo, mas ao me ver aproximando ele levantou seus olhos empapados pelas lágrimas e seu rosto tomado pela tristeza.
- Quero saber... Quero saber o que ela disse antes de morrer - Pediu ele, soluçando.
Muito embora eu tivesse sido a ultima imagem a quem a mulher dele deslumbrou antes de morrer, me delonguei a responder, já que a ultima fala de Tereza não tinha sido sobre ele.
- Ela só falou de você - Menti.
Ao ouvir essa resposta me lançou um abatido sorriso e voltou a focar sua atenção na janela. - Continua mentindo, não é mesmo?! - E começou a rir.
- Você já procurou sair deste casulo?! Digo, voltar a trabalhar ou voltar a viver, pelo menos?! - Perguntei.
- É uma boa pergunta, vindo de alguém que tem como profissão abraçar, beijar e levar pessoas desconhecidas até sua casa, ou sei lá que diabos onde - Rebateu, com seu sorriso desfalecendo em seu rosto.
- Este é meu trabalho. Você fala isso, mas estou aqui para beijá-lo, e apenas porque me chamastes. Afinal, quer que eu me retires, desistiu de me beijar?
- Não... não, pode ficar. Perdoe minha falta de cavalheirismo, apenas estou me acostumando com a ideia de que daqui a pouco vou morrer, e que a minha vida, nos últimos tempos, se tornou um verdadeiro inferno. - Se desculpou.
Achei justo e acabei decidindo dar um mínimo de tempo para que ele pudesse relaxar. Enquanto isso, resolvi conhecer a casa, que se encontrava bastante mudada desde a minha última visita. Móveis quebrados, livros espalhados pelo azulejo e teias de aranha em quase toda parte. Terrível.
Ao retornar à minúscula sala, o encontrei dormindo, com o resto do cigarro entre os dedos. Tentei acordá-lo, pois não poderia me demorar muito tempo ali.
- Acorde! Sinto informar, mas ainda tenho outros serviços para atender, vai querer que eu ainda o-faça ou não?! - Informei.
- Quero sim, quero... Me desculpe. Sabe, deve ser legal ser como você, digo, não criar vínculos com ninguém, não ter aquele "amor para a vida toda". Não ter sofrimento ou dor por esta causa - Refletiu ele, jogando o filtro de seu cigarro apagado fora e se levantando.
- Também tem suas desvantagens - Falei, o segurando pelos ombros e observando a força esgueirar-se de seu corpo.
- Sonhei muito com isso, sabia? Como seria esse beijo, mesmo depois de casado continuava a pensar em como eu estaria durante sua visita, se eu teria conseguido algo na vida, se eu estaria muito velho, um pouco mais jovem... e agora você está aqui e parece que tudo passou voando - Sussurrou ele, agora sem energia para fortificar sua voz.
- Mas agora tudo acabou, irá reencontrar as mulheres da sua vida, não é?! - Sussurrei de volta. - E sobre eu não me apegar a ninguém... Está enganado, às vezes acontece - Sorri.
- Eu sabia!! - me devolveu o sorriso, agora quase inexistente, mas feliz e satisfeito.
Então eu o-beijei, mas com o um forte sentimento de culpa, culpa por todos os sofrimentos que eu o concebi, por tê-lo encontrado nesta situação deplorável e por não ter feito nada para ampará-lo.
Ao final do beijo ele se encontrava falecido em meu colo. Apanhei o cadáver e o deitei em sua cama que, durante a apreciação do corpo, me lembrou de uma antiga frase do próprio defunto Pedro:
- "A morte não sente condolência, não sente tristeza ou penar." - Dizia ele, repetindo sempre que podia.
- Parece que você se enganou, meu velho - Pensei alto e gargalhei, peguei minha foice e parti, mais alegre.
- G.F.
Inspirado em trechos da música, "Canto para minha morte", de Raul Seixas:"(...) A morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sem em que esquina ela vai me beijar. (...) E no beijo, provar o gosto estranho, que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar. Vem, mas demore a chegar. Eu te detesto e amo, morte, morte, morte. Que talvez seja o segredo dessa vida (...)"
Sensacional. Um dos meus favoritos.
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