E no trânsito caótico do shopping Iguatemi
Meus olhos achavam em cada esquina um derrotado Zumbi
E as lagrimas em meus olhos expressam o que eu senti
Vendo os outros pretos, de moto, apanhando em uma blitz.
Dizem que salvador é a “cidade cartão-postal”
Mal sabem eles que atrás das fotos é que está o verdadeiro mal
Vivendo em poltronas e escritórios com ar-condicionado
Enquanto o povo derrete de calor do outro lado.
E eu aqui em pé esmagado nesse ônibus-pau-de-arara,
Não sei explicar pra gringo o que significa “mara”,
Porque de maravilhoso, assim, não tem quase nada.
E que nesse calor de salvador, quando pedimos uma chuva fina
Choramos ao saber que em algum lugar da cidade algo vai alagar
Essa é a nossa triste sina.
Porque viram armas dizem que o Brasil é violento
Mas a verdadeira violência está onde não se pode ver:
Como quando nos acostumamos com desmoronamento,
Quando preferem acreditar mais na mídia do que em você
Ou quando não podemos fazer feira por falta de pagamento
Do nosso árduo trabalho em não cairmos nessa loucura
E preferimos ir no boteco beber .
Se quando tem oferta também tem procura
Então como faremos com a nossa mundial cultura
Que incentiva a repressão, violência e a tortura?
Como um legista eu procuro saber sobre o mar morto
E morreu como?
A base de lixo, óleo e Omo
Nas, não mais brancas, espumas do mar
Intoxicando Iemanjá
E ainda querem que, suas casas, o tsunami não destrua
Então já comecem a aprender a nadar.
A televisão diz que a PM é pra nos proteger
Mas quando o ladrão é a polícia quem protege você?
Eles dizem que a favela é lugar de ladrão, macumbeiros e fracassados
Mas o que eles não falam é que lá dentro, entre si, são muito amados
Revolucionando esse mundo estruturado à base da violência e desgraças alheias
Vivendo a lá Spider-Man, cercados de infinitas teias
De dor.
E eu fico aqui pensando quando, de novo, descer o Salvador
Fico aqui apenas imaginando a sua dor
De ver uma cidade montada a base de seu nome
E a maioria da população tomados pela fome
E quando vier abrir de novo o rio vermelho,
Porque de mar aqui não resta mais nada,
Fico imaginando se, ao ver a água vermelha, ele vai achar que é Tang
Quando, na verdade, o que está escorrendo é nosso próprio sangue.
Mas tenho certeza de que se isso ocorrer hoje em dia
O próprio Jesus, para manifestações, junto iria
E por isso, também apanharia,
Também morreria,
Mas, pelo menos, saberia
Que, quando necessário, o amor de verdade
Não recusa barulho ou grito
Pra lutar por dignidade.
G.F.
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