Essa situação se ocorreu no inicio da noite do último sábado, mas que só consegui transferir para o meu teclado hoje:
Minha meta do último sábado era finalizar a semana (e iniciar o final de semana) com uma cerva bem gelada pra esquecer a semana, que tinha sido cheia de "nada's", e fui me encontrar com uns amigos em um bar localizado no Porto da Barra, em Salvador.
Ao chegar no Porto, já dei de cara com uma quantidade razoável de pessoas no local, assistindo à um show musical gringo em um dos bares. Pensei em comprar um piriguete à caminho do bar.
Afinal, a noite tinha que começar.
Fui para a fila do depósito de bebidas, esperei, pedi, paguei e recebi a cerveja.
Quando penso que não, meus olhos se deparam com a figura de um menino de, aparentemente, 7 pra 9 anos, negro, com sua roupa suja, em farrapos e seu cabelo despenteado batendo, chutando e pulando. Lutando contra o vento.
Era capoeira, completamente notável e natural, não dei importância, já que vários garotos que andam por aquelas áreas jogam capoeira e treinam por lá. Bom, segui caminho para o bar, que era na direção do garoto que dava piruetas pelo ar.
Quando estava, praticamente, do lado dele, ele exclama:
"Tome isso!! Eu sou Pedro Bala!!"
Tomei um susto!
"Ele disse Pedro Bala?" Pensei comigo mesmo.
Como já me localizava do lado daquele capoeirista mirim, ativei minha cara de pau e perguntei:
"Você sabe quem é Pedro Bala? Como conheceu?" Perguntei.
"Oxe, claro que sei. Era o líder dos Capitães da Areia. Foi um amigo meu que falou, ele disse que eles eram meninos pretos e moradores de rua que nem eu."
Pude ver nos olhos mirrados daquele baixinho, um brilho de orgulho e felicidade por falar do seu, aparente, ídolo.
"Mas, eles já morreram. Tá vendo aquelas estrelas grandonas que tão brilhando lá no céu?" Me perguntou, apontando seus dedos sujos para o céu "São eles!! E sabe porque elas só aparecem de noite?! Para proteger os meninos que moram na rua das policia e de outras pessoas ruins. Eu me sinto bem melhor à noite, porque eu sei que eles estão me olhando e me protegendo das coisas ruins." Continuou, empolgado.
"Que coisas ruins?" Perguntei.
"Dos policiais que me batem quando eu ando na rua ou quando tô dormindo em algum lugar, e dos caras que vendem drogas e matam gente, e ainda tem uma gente ruim que mata quem mora na rua só porque tá com raiva de nós."
"E o que você acha dos Capitães?"
"Nunca gostei de morar na rua, nem de não ter dinheiro pra comprar comida ou brinquedo pra mim. Mas, depois que meu amigo me contou deles eu fiquei feliz de ser igual a eles. SOU MORADOR DE RUA TAMBÉM!!!" Afirmou ele, com um sorriso largo no rosto e um brilho na alma.
"E pode lembrar disso: ainda vou ficar famoso que nem eles, virar artista, vou jogar capoeira pelo mundo todo e ficar rico. Pode lembrar. Tchau, moço." Disse ele, alegre, mas já indo embora, respondendo ao chamado da sua, aparentemente, mãe.
"Tchau!!" Respondi, pensando à respeito daquilo. Nunca fui muito fã dos escritos de Jorge Amado, embora eu ame o foco e a importância que deu e mostrou do resto miserável da sociedade baiana.
Mas, aquilo era especial. Era a representatividade de um menino de rua e seu orgulho de se aceitar como é, por mais que os desafios o-desanimem.
E eu tive a certeza que aquele menino chegará aos seus sonhos.
Pude presenciar a volta do "espírito dos Capitães da Areia".
Pude, finalmente, entender, e sentir, seu espírito, Jorge...
E entendi:
A REPRESENTATIVIDADE É IMPORTANTE, SIM!!!
G.F.