terça-feira, 6 de outubro de 2015

OXÓSSI

Morei meus primeiros 2 anos na Av. Sete,
Depois disso fui viver em Nazaré,
Passei minha infância convivendo com minha tia,
Que é uma religiosa fervorosa,
E achava que meu choro, quando eu nasci,
Era porque eu me afastava de Jeová,
Mas, na real, era de saudade da minha
Pré-reecarnacional casa.

Ia nos cultos com ela
E ouvia falar de um Deus que, pra mim,
reclamava
Mais do que ajudava,
Mas, onde já se viu
Um pai punir um filho
Que ainda não sabe nada da vida?!
Um Deus branco, de olhos azuis,
Pai de todos nós, negros?!
Achei estranho...
Não gostei daquele Deus

Sempre gostei do amor,
Em toda sua forma
Torta,
Sem estrebeiras,
Nem porta,
E não entendia porque
Aquele pai deixava meus irmãos ali,
Na miséria,
Ressaltando, somente, seus atos "impuros",
Como se fossem bactérias.
Já não gostava daquele "Único" Deus...

Até que, um dia que eu saía do culto,
Com toda minha rebeldia dos 10 anos,
Já de saco cheio de tudo aquilo,
Me deparo com um negro alto e forte
E que me perguntou porque eu tava ali
Se eu parecia tão fulo da vida,
"É o único jeito, né não?" Respondi.
Ele me sorriu de volta e me disse
"Não, meu filho, você é livre pra aprender
E viver. Siga seu caminho".

Ano retrasado achei um livro
Falando sobre a cultura africana
E eu vi a foto daquele negro lindo lá,
Só que tava todo enfeitado,
E foi quando eu, finalmente, descobri seu nome:

Se chamava Oxóssi

G.F.

A VOLTA DO ESPÍRITO DOS CAPITÃES DA AREIA

Essa situação se ocorreu no inicio da noite do último sábado, mas que só consegui transferir para o meu teclado hoje:

Minha meta do último sábado era finalizar a semana (e iniciar o final de semana) com uma cerva bem gelada pra esquecer a semana, que tinha sido cheia de "nada's", e fui me encontrar com uns amigos em um bar localizado no Porto da Barra, em Salvador.
Ao chegar no Porto, já dei de cara com uma quantidade razoável de pessoas no local, assistindo à um show musical gringo em um dos bares. Pensei em comprar um piriguete à caminho do bar.
Afinal, a noite tinha que começar.
Fui para a fila do depósito de bebidas, esperei, pedi, paguei e recebi a cerveja.
Quando penso que não, meus olhos se deparam com a figura de um menino de, aparentemente, 7 pra 9 anos, negro, com sua roupa suja, em farrapos e seu cabelo despenteado batendo, chutando e pulando. Lutando contra o vento.
Era capoeira, completamente notável e natural, não dei importância, já que vários garotos que andam por aquelas áreas jogam capoeira e treinam por lá. Bom, segui caminho para o bar, que era na direção do garoto que dava piruetas pelo ar.
Quando estava, praticamente, do lado dele, ele exclama:
"Tome isso!! Eu sou Pedro Bala!!"
Tomei um susto!
"Ele disse Pedro Bala?" Pensei comigo mesmo.
Como já me localizava do lado daquele capoeirista mirim, ativei minha cara de pau e perguntei:
"Você sabe quem é Pedro Bala? Como conheceu?" Perguntei.
"Oxe, claro que sei. Era o líder dos Capitães da Areia. Foi um amigo meu que falou, ele disse que eles eram meninos pretos e moradores de rua que nem eu."
Pude ver nos olhos mirrados daquele baixinho, um brilho de orgulho e felicidade por falar do seu, aparente, ídolo.
"Mas, eles já morreram. Tá vendo aquelas estrelas grandonas que tão brilhando lá no céu?" Me perguntou, apontando seus dedos sujos para o céu "São eles!! E sabe porque elas só aparecem de noite?! Para proteger os meninos que moram na rua das policia e de outras pessoas ruins. Eu me sinto bem melhor à noite, porque eu sei que eles estão me olhando e me protegendo das coisas ruins." Continuou, empolgado.
"Que coisas ruins?" Perguntei.
"Dos policiais que me batem quando eu ando na rua ou quando tô dormindo em algum lugar, e dos caras que vendem drogas e matam gente, e ainda tem uma gente ruim que mata quem mora na rua só porque tá com raiva de nós."
"E o que você acha dos Capitães?"
"Nunca gostei de morar na rua, nem de não ter dinheiro pra comprar comida ou brinquedo pra mim. Mas, depois que meu amigo me contou deles eu fiquei feliz de ser igual a eles. SOU MORADOR DE RUA TAMBÉM!!!" Afirmou ele, com um sorriso largo no rosto e um brilho na alma.
"E pode lembrar disso: ainda vou ficar famoso que nem eles, virar artista, vou jogar capoeira pelo mundo todo e ficar rico. Pode lembrar. Tchau, moço." Disse ele, alegre, mas já indo embora, respondendo ao chamado da sua, aparentemente, mãe.
"Tchau!!" Respondi, pensando à respeito daquilo. Nunca fui muito fã dos escritos de Jorge Amado, embora eu ame o foco e a importância que deu e mostrou do resto miserável da sociedade baiana.
Mas, aquilo era especial. Era a representatividade de um menino de rua e seu orgulho de se aceitar como é, por mais que os desafios o-desanimem.
E eu tive a certeza que aquele menino chegará aos seus sonhos.
Pude presenciar a volta do "espírito dos Capitães da Areia".
Pude, finalmente, entender, e sentir, seu espírito, Jorge...
E entendi:
A REPRESENTATIVIDADE É IMPORTANTE, SIM!!!

G.F.

MORR(VIV)ER

Se eu morrer,
Não chore, não.
É só minha última poesia
Nessa minha vida
Encarnada.

Assim que Obaluaê me levar,
Pra junto do mangue irei,
Deixando-me arrastar
Para a próxima etapa do
Cosmos e do
Aiyê.

Mas, sorria!
Sorria, porque eu não vivi
No infortunio da eterna tristeza,
Movida pelo apego.
E dela nada mais espero
Quando for embora,
Para as profundezas.
Pois,
Só chora com a morte
Quem morreu sem ter vivido.
E eu tento viver, a cada dia,
Mais atrevido.

Se sentires saudade de mim,
Olhes para cima e
Lembre-se:
Estarei sempre te olhando
Da constelação
De Gêmeos.

Pois, ao fechar eternamente
Meus olhos,
Não será nem no céu,
Nem no inferno,
É no ar que irei morar.
Junto com Tempo e Oxóssi,
Fazendo do mundo,
Minha morada.

Pois, no final, estarei dividindo um cigarro
Com meus cumpadres: São Jorge e
Zé Pelintra;
Bebendo da cachaça do Dragão;
Fazendo uma festa no Òrun;
E dando risada na lua.

G.F.

O ESCRITOR

Escrever é a ação
De tesão
Do poeta.

Escrevemos pra gozar da vida,
Gozar a poesia vinda
E sua ida.
Gozar do gozo
Literário,
Humano,
Temporário.
Escrevemos pra mostrar
O que nos cerca,
Para cercar
O que nos resta ser
Para ver nosso alvorecer.

Contanto, não escrevo mais
Só por prazer.
Falta força.
A mão já cansa de escrever
com tanta coisa ruim
Na rua, na praia, no cinema
E no botequim.
Pessoas movidas pelo conceito
De que a opressão
E o preconceito
São as únicas respostas á se darem.
Mutilando a esperança
Do resto de nossas
Decepções
Variadas.

Porém, a poesia sempre me lembra
Que nós, e somente nós,
Somos os representantes
De nossos sonhos ambulantes.
Dentro dessa nossa vida
Amante.

Então avante!!

E é quando eu levanto a cabeça,
E grito um Viva!!
Aos Sonhadores das
Grandes causas.
Aos Amadores das grandes
Pequenas asas.
E aos escritores dos pequenos
traumas.

Pois, esse é o gozo,
E a dor,
De ser escritor.

G.F.

A QUEBRA

A poesia surge da quebra
E a quebra, da poesia.

Pois, quando o mundo
É monarquia,
A poesia vira
Anarquia.

Quando o mundo
É guerra,
A poesia nada mais é
Do que amor,

E quando o mundo
É paz,
A poesia se torna
Dor.

Pois, quando o mundo
Se vê minimalista,
A poesia se torna
Excêntrica e
Exagerada,
Em sua forma mais pirada
De fuga do comodismo.

Porque nada está bom o bastante
Para a poesia.

Pois, poesia é a revolução
No seu grau mais poético
(Im)possível.

G.F.