domingo, 22 de fevereiro de 2015

SERTÃO

A sorte mal-acabada,
De quem trabalha na tora.
Essas pessoas desacreditadas
De que o que não mata, engorda.
De dia, correndo atrás de seu pão,
Para, de noite, suarem opressão.

E nos olhares dessa selva de pedra,
querendo e vendo, do útero
desse nosso país-fome,
Onde meu povo, aliciado
pela desnutrição,
De alma seca, como
nosso chão,
Rezando por irrigação,
Viajando e sofrendo descriminação,
Conseguem (sobre)viver
Rezando, à Deus, gratidão.

E, agora, eu grito,
Pois eles levam a facada e eu
sangro, aflito.
Me roubem, mas não sua saúde e educação,
Para que eles, dentro de suas casas
De barro e papelão,
Não achem que, simplesmente,
nasceram em vão.
Porque dentro desse arrasta-pé
com baião,
Dentro desse caldeirão de cultura, vivência,
Oxente e imaginação,
Eu sou apenas uma concha que
Derrama o que há de bom
No meu sertão.

G.F.

TEMPO

O tempo virou nossa matéria
Virou nossa carne, e fome,
E até seu codinome
Virou, também, paixão.
Quanto tempo ainda nos terá?
Soube que Cronos resolveu atrasar
O nosso tempo,
Pra ficarmos juntos,
Só por mais um segundo,
No nosso delirante passatempo.

E, enquanto eu me jogo
Na sua natural sedução,
Enquanto o meu lado direito
Entra em contradição,
Só fico esperando
Que esse nosso amor violento
Não se transforme em mágoa,
Pois vira o inverso do sentimento,
Oceano sem água.

Pois, de cada coração
Que sacode e transborda, finitos,
O nosso, juntos, colados,
Se torna universo.
Não serei poeta de um amor
Caduco.
E o nosso, jamais será.

G.F.

RUA



Na escuridão da pseudo-rua
Se via, Nos olhos daquele menino,
De sandália velha,
O reflexo da lua.
Com aquele olhar embaçado,
Pensando distante.

Meio que pressentindo,
Levou seus irmãos
Mais novos pra casa,
Sentindo
Que Lá vinha a desgraça
Na brasa.

Uma discussão,
Um clik cleu,
Uma familiar agressão,
Uma bala disparada pelo
Ódio,
Na palma da mão.
O seu Joaquim do barzin,
Foi quem socorreu,
E viu nos olhos dele quando,
O último suspiro, ele deu.

Vai ser criado sem pai,
Assim como seus pais,
Assim como os pais deles.
Como é que álguem pode morrer
Antes mesmo de viver?

Estando só,
Na mesmice
Desse interminável, e sofrível,
Sofrer.

G.F.

VOCÊ

Quero acampar em você.

Para que eu possa olhar pra cima,
Atrás das costelações no céu
da sua boca.
Beber das tuas lábias,
E comer das tuas ações tardias.

Dois corpos céticos,
num mesmo espaço poético,
Suados,
Sangrando,
Por abraçarem a faca cega
Da paixão e ferindo o mesmo
Cego coração.

Me perdendo na sensual dança
Dos teus cílios.
Um pra cá,
Dois pra lá-bios
Juntos,
Colados,
Foragidos.

E do amor,
Puramente,
Embriagados
E destruídos.

G.F.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

FOGO

Escreva sobre
A força de teu sorriso
E o motivo da tua solidão,
E recite, grite, a plenos pulmões,
Para que os ventos levem seus sentimentos
Para outra pessoa que também os-sinta.
E queime.
Pois, não há nada mais poético
Do que, dentro de cada palavra,
Sejam perdidos, no fogo,
Os risos,
As lágrimas
E os desaforos.

G.F.