quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

CIDADE (DE) PRA QUEM?!

É o desamor
Que reina na rua,
Em pleno carnaval.
Mostrando a face crua
Do verdadeiro mal
Por trás das máscaras da avenida.

Num oceano de peles brancas,
Camisas coloridas e ostentação
A maldade tem cor
De pele.
Quando rola o bloco do povão:
"Não vá!!"
Que, para eles, só tem preto ladrão,
"É arrastão!!"

Eu só oro para que
Pare com isso, Deus.
Não desampare seus filhos.

Mas, a voz do povo não é mais
A voz de Deus,
Pois, Deus está em cima do camarote
Mandando os milico fazer
Corredor polonês,
Onde os negros e ambulantes
São o alvo da vez.

Os fardados abrem
Espaços na multidão
E se você, preto fora da corda, vacilar...
Bad tum,
Tá no chão.

A cidade do mar
E a festa do axé,
São do povo,
Que tem cachê pra molhar a mão
Do policial
Quando for abordado doidão;
Enquanto, que o sangue de uma mãe que apanhou
Escorre pela rua,
Só porque seu isopor
Não tinha sido credenciado;
É acordada aos chutes
A tia que dormia no papelão,
Apenas pra desocupar o lugar
Que o prefeito quer sentar;
Um catador morre à pauladas,
Só por tentar pegar uma latinha
No pé da CHOQUE;
Um neguin de relógio
Na avenida é abordado,
Levando logo sopapo,
"Porque?"
"Isso deve ser roubado!"

O cheiro do sangue da pipoca
Escorrendo dos cassetetes dos Suínos,  
Cuja violência e repressão
Viraram hino,
Exala no ar.

No massacre que eles criam,
Caem salivando
E mastigando
O corpo dos inferiores.
A segurança virou temor,
A farda virou pele
E o distintivo virou esplendor.

A visão da cena é arrepiante,
Extasiado,
Eu desmorono
E a raiva e impotência tomam conta.

Meu orixá me avisou
De que o jogo virou.
O mundo já tem dono, bê
E o nome dele é: PODER!!

A cidade foi excomungada,
Do povo da periferia, desabitada,
E, de novo, a arma foi colocada na boca
De quem tanto vai para a forca.
E isso a televisão não exibirá:

O Apartheid brasileiro!!! 

Mas a tempestade chegará!!

RE-Tomem de volta a cidade,
Filhos de soterópolis,
Vamos, essa selva cinza,
RE-Conquistar!!

Afinal, a cidade é de quem?!
Cidade pra quem?!

G.F.

SECAMARGURA

Oh, meu Deus,
Será que o senhor, conosco,
Se arretou?!
Fazendo, assim,
Todas as nuvens parar
De nos dar toda a chuva que, nelas, há

Meu Deus, se eu não rezei direito
Ou pedi de mal jeito,
Peço que o Senhor me perdoe,
Acho que a culpa foi
Dessa minha pobre pessoa,
Que, de tão desesperado,
Não soube fazer uma oração.

Meu Deus, me desculpe
Eu pedir a toda hora,
Com o coração cheio de mágoa,
Pra o sol, de fininho, se arretirar,
Pra cair um tiquinho de água nessa imensidão,
Pra ver se nasce um alface no chão.

Senhor, me desculpe
Eu implorar para chegar o inverno,
Desculpe pedir para acabar com esse inferno
Que, dentro de mim,
Vejo se materializar,
Na minha Paramirim.

Nessa minha vida,
Que, parecida com cebola cortada,
Já me fez muito chorar,
Vira espinho de Mandacaru
Que adora me arranhar.

Mas que, mesmo com tanta
Secamargura,
Só me faz, por essa minha terrinha,
À cada dia, me apaixonar.

Pois, só deixo minha Paramirim
No último pau-de-arara.