terça-feira, 30 de junho de 2015

CARTA PARA VILMA

"Vilma, se cada coisa bonita que nós falássemos um para o outro fossem escritas, todos nós escreveríamos grandes livros como este. 
Só acho que te amo, pra sempre.
Considere isso como meu poema para você.
Carlos
30.12.81"

Foi essa a frase que encontrei na folha de dedicatória do livro de poemas "Elegia - Pablo Neruda" que adquiri hoje de um sebo.

Quando eu li aquela antiga e singela declaração foi, por um segundo, como se eu pudesse me sentir em pleno 1981, recebendo, ou entregando, aquela mensagem escondida. Pude sentir uma amostra grátis dos lampejos de emoções que devem ter passado pelo corpo dos envolvidos. Foi quando eu realmente me toquei na incrível profundeza da história por trás desse conjunto de letras em algumas folhas amareladas de papel. 
Não passam de cartas de amor desconhecidas e antigas...

Acabei sendo completamente tomado pelos disparos de pensamentos em minha mente avoada, como:
"O que essa Vilma sentiu na hora?"
"Será que eles ficaram juntos?"
"Sobre que coisas bonitas eles falavam?"
"Será que os envolvidos ainda estão vivos e se lembram desse episódio?"

Esse não é o primeiro - e espero que não seja o último - livro usado que consigo e longe de ser o primeiro rabiscado, ou com mensagens e frases escritas, em suas folhas. Sem falar que, mesmo ingênua e inconscientemente, eu sempre tive a percepção de que um sebo nada mais é do que uma biblioteca de histórias -  mas não as que os livros contam, e sim as que os livros acompanham -.
Não, são mais do que cartas. 
São um dos maravilhosos pedaços de alguma vida alheia. E eu segurava uma, de 1981, em minhas mãos.
E como isso me encantava...

Cartas de amor, cartas de saudade e, até mesmo, cartas de desculpas. Sentimentos e pedaços de vida anônimos expostos e repassados para o próximo. O mesmo amor que vemos brilhar nos olhos de todas as pessoas, cotidianamente, e não notamos. As histórias por trás das histórias e as histórias por trás das coisas. A poesia do mistério que é ser um humano dotado de emoções.
Como é linda, a poesia da vida.

Pois, poesia - arte - primitiva, sensorial, antes de tudo, é gesto.
E com aquele gesto de amor antigo, que explanava para mim e para os céus sua verdade, eu senti que, no final das contas, não importa o que se aconteceu entre Carlos e Vilma, apenas o que se gerou: A pura e embriagante poesia.
Somente poesia.

G.F.

CAIS

Me sinto, e ajo,
Como um desgarrado,
Igual à fumaça que foge da
Brasa e do calor
Do cigarro.

Queria eu pelo menos uma vez,
Fazendo de você minha ancora,
Ancorar
No primeiro mar de
Segurança
Que eu achar,
Mesmo eu sabendo que
Desse cais,
Logo, logo
Irei zarpar.

G.F.

SELVA DE PEDRA

A rude e rudimentar
Imensidão
Dessa selva de pedra que
Endurece o coração.
Luzes acesas nesse
Labirinto de muros,
Apenas refletindo a
Cintilante escuridão dos mudos
De alma.

Nessa selva de pedra
Que endurece o coração,
Que de vermelho
Se torna azul,
Se camuflando aos
Pixos,
Tentando sobreviver
Como bicho,
E que, disso,
Vira cinza.

Cinzas.

G.F.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

UMA REZA À CACHOEIRA

Rodeado de axé,
Onde se dança tomado
Pelo samba e tambores,
Que, dessa pequena cidade
Do exagero,
São sustentadores.
Movido pela energia
Do Preto Velho,
Vou seguindo a nostalgia
Das luzes e da fumaça
Dessa cidade mística
De raça.

Entrando na Rosarinho,
Para sair no Kfûa,
E, ao sabor do Rock Pinto,
Vou andando na enfeitada rua;
Procurando explorar a gruta azul,
Apenas para dançar, com o pai do sertanejo,
Ao som do reggae;
Ficando Doidão Bahia,
Apenas para acabar bêbado
Aos pés de Paulo Lomba,
Na vinte e cinco.

Peço Agô para gritar
Saravá
Aos terreiros,
E para, desse prazer, aproveitar
O seu saboreio.

Uma reza à Omulu,
Atotô Obaluaê,
Uma reza ao rio de maré,
Sem nenhuma beira.
Uma reza à Cachoeira.

G.F.