quinta-feira, 9 de maio de 2013

MAIS UMA NOITE...

      E abri os olhos. Tentei me levantar ao notar que não me encontrava em minha cama no meu ambiente de costume, sentia que não me encontrava no meu pequeno quarto de hotel sujo, desarrumado e negligenciado pelas excedentes farras e destruições vivenciadas por ele nesses últimos meses. Um acanhado feixe de luz atravessou a janela e me cegou. Mas afinal, onde eu estava?

    Me virei em direção ao criado-mudo e tentei apanhar meus óculos, para que pudesse explorar atentamente o local em que me encontrava. Não que já não tivesse me acostumado com minhas corriqueiras alternâncias de leitos, não durava mais do que uma semana em uma mesma cama, no entanto, não me lembrava de como, ou quando, tinha chegado até ali. Passei a mão pelo móvel, do lado de onde estava deitado, e não encontrei minhas lentes.

 - Mas que inferno! - esbravejei.
    Neste momento senti um movimento nos lençóis ao meu lado, virei-me assustado com a repentina agitação e me deparei com um cândido e primoroso corpo, sinuoso e, de tal forma, oculto pelas cobertas que não o tinha notado antes.
- Ei, acorde! Cê viu meus óculos? - Perguntei, na curiosidade de constatar a quem eu dei meu amor noite passada.


     A dona do corpo acordou, se mexeu e tentou sentar.
- Sei lá, não me lembro de nenhum binóculo não, rapaz. - Falou arrastado, com a frequente voz sonolenta que possuímos ao acordar.
- Não, binóculos não, falei óculos. - Resmunguei.
    Mas nesse momento ela virou e pude captar com quem estava tendo aquela conversa.
- Clarice, mas...  O que estás fazendo aqui, mulher?
- Te encontrei ontem à noite vagando pelas ruas do rio vermelho, cantando e tropeçando pela calçada. E devo dizer... sua lábia, mesmo durante aquele estado de embriaguez, continuava certeira como sempre - Confessou, abrindo a brecha daquele sorriso ingênuo, mas com um leve toque de safadeza, que tanto a caracterizava.
- Contudo, infelizmente devo dizer que não é o suficiente para não pagar, mas farei um preçozinho camaradinha pra você, R$80,00. Pode passá pá cá.
    Levantei, achei meus óculos, abri a carteira e tirei uma nota de R$100.
- Tem troco? - Perguntei, torcendo para que sim.
- Não - Disse, enquanto arrebatava a nota da minha mão - Parece que ficarei te devendo um favorzinho, não?! - E me dirigiu uma piscadela.
- Parece que sim, não tem outro jeito, tem?! - Respondi, já cansado daquele papo.
- Não mesmo - Gracejou, enquanto se vestia e se dirigia para aquela descaída porta, daquele fodido hotel, que sabia que se encontrava em algum dos bairros populares da cidade de Salvador.
- Tá, tanto faz... Só sei que acabei de perder meu dinheiro - Pensei alto. Fui até a bancada, apanhei um copo, o preenchi com Uísque que achei no chão, do lado da mesa de jantar e sentei na beirada da cama, apoiando o copo na mobília. Peguei meu maço, acendi um cigarro e voltei a dormir.
- G.F.

9 de maio de 2013

   É, chega a ser até levianamente engraçado. James não tinha o mínimo apreço pelo seu cárcere escolar, não tinha formado nenhum julgamento específico para tal cólera, apenas sentia. Nunca teve muitos motivos concretos para reclamar de sua sacramental vida de colegial, nunca teve genuinamente problemas para se enturmar ou para cativar os colegas, pois os efetuava com jurisdição e contentamento, já que não gostava de se encontrar sozinho com seus pensamentos, pois tinha medo de se negar a querer sair daquele plano. Todavia, talvez não fosse o ambiente que lhe abominasse tanto, mas sim a notável demência à qual, maiores partes dos jovens, lá encontrados, exerciam. Ele sentia que não poderia pertencer a toda aquela burocracia, um ambiente fortemente movido pelo status e pela beleza, formado por um amplo sistema de homogeneização a qual não importava o que você seria capaz de fazer, contanto que consiga uma estabilidade econômica na vida. Sempre fazendo, ou querendo fazer, as mesmas coisas, com as mesmas pessoas, tinham perdido a coragem, tinham sido absorvidas suas autópsias. Graças ao fomento e devoção de sua amada mãe, desde cedo tinha um excêntrico gosto pelo saber, mesmo que muitas vezes esse elevado gosto tenha sido sufocado pela obrigatoriedade dessas ações, tinha um apego pela leitura e escrita, pela verbosidade, um fanatismo quase caricatural pelo distinto, o obrigando a ter uma enorme repulsa de toda aquela repetição exacerbada  Sentia que não era aquilo que o inatingível universo preparara para ele, que não era por aquela razão que estava no mundo e que perdeu sua viagem até ali. Só sentia que podia fazer mais, mais por si e pelo coletivo. Afinal, viviam perguntando para ele a onde ele queria chegar, mas se tinha tantos caminhos na vida, e pouquíssimo tempo no ar. Jogou tudo para o alto e foi à luta!

- G.F.