quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

NOITE

  Não sei bem o que foi aquilo. Uma gota da minha tristeza salgada, imaculada e ilusória derramando-se pelo meu rosto inexpressível ao admirar o breu e as estrelas da minha janela. Talvez seja só sentimentalismo em demasia.
  Mas, afinal de contas, que tristeza? Qual motivo para tanto sentimentalismo vindo de alguém tão extremamente racional e calculista – frio, como um iceberg pronto para afundar qualquer que seja o Titanic que viesse em minha direção -?   Na verdade, essa é uma das minhas poucas qualidades apreciadas por mim mesmo: A independência sentimental, mas que, aparentemente, está sendo arrebatado pela beleza da solidão dessas noites escuras e quentes de verão.
  Nunca liguei para a solidão, sempre a via como uma amiga, uma antiga companheira, pronta para abrir seus braços e me abrigar no momento em que eu mais precisasse. Mas, ainda assim, para que essa lágrima?
  Arrependimento? Não tenho – e continuo não pretendendo ter - 
  Culpa? Pelo o que?
  Inveja? Não causaria esse clima tão down.
  Não sei ao certo, talvez seja só uma advertência interna avisando que está na hora de rever essas minhas posturas sacanas e depravadas. Não sei, pode ser.   Contudo, não sei se consigo ser de outro jeito. Na verdade, não quero ser de outro jeito – mas o que é que eu estou falando?! Que se fodam todos! -, tudo o que conquistei foi sendo assim, então porque mudar? 
 Sendo este geminiano em aquário compreendo a importância e necessidade da mudança, até porque tenho quase uma obsessão com ela. É cansativa e às vezes enoja, mas a adoro. Talvez eu seja só mais um louco, ou algo do tipo, mas isso ainda não me responde a razão da minha perdida e tão indesejada lágrima.
  Parece que tenho que começar a me acostumar com a ideia de que a vida tem dessas coisas e então – só então – poderei dormir mais tranqüilo e leve.

- G.F.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O AMOR É O RIDÍCULO DA VIDA

Estamos cercados, reprimidos, contrariado pelo ridículo, estamos sempre procurando uma beleza impossível, uma beleza forjada aos moldes do romantismo, uma beleza ilusória e estereotipada. Porque essa nossa necessidade de buscar um sentimento tão aprisionado e forçado?

“O amor” vai virar o ridículo da vida.

Procuramos sempre nos satisfazer, somos seres movidos pelo egoísmo, egocentrismo e pelo medo. Sorte é se aceitarmos essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, nos obrigando a sempre pensar no futuro e nunca no presente, sendo esse pensamento nosso redentor, pronto para nos acudir assim que a esperança morresse nos despreocupando do aproveitamento dessa vida tão vazia, nos preocupando com coisas tão pequenas, despreocupando quem não sabe amar, quem veio a este mundo e perdeu a viagem, e nos obrigando a limitar, ainda mais, esse que tempo que temos deste lado - se existir mesmo um outro lado -.

Vivemos em uma mentira, somos movidos a mentiras: O amor, a família, a vida, a morte. Nossa esperança.

Isso é uma perda de tempo, isso tudo. Talvez, se vivêssemos com o foco no agora, se resolvêssemos amar o agora, atuar pelo agora, viver pelo agora, apanhar qualquer centelha de esperança e coragem. Mas, só talvez...

“O amor” virou o ridículo da vida.

Procuramos nele uma beleza impossível, inalcançável, uma beleza que está sempre se pondo, indo embora, bonita e breve. Como borboletas que só vivem vinte e quatro horas.

Isso não é “O amor”, isso é uma das mais famosas e bem fabricadas farsas desse mundo.

Morrer não dói.

O que dói é a sensação de que você talvez não encontre o que tanto esperava no outro lado, o que dói é a percepção de que tudo o que você fez foi em vão, o que dói é perceber que passamos à vida toda restringindo o nosso amor, prendendo um sentimento que, assim como as andorinhas, nasceu para a liberdade e a alegria dos casais apaixonados nos parques, de mãos dadas e beijos trocados no canto da boca.

“O amor” é o ridículo da vida.

Mas sempre fui apaixonado pelo ridículo.

- G.F.


- Inspirado em um dos últimos poemas escritos pelo compositor e poeta Cazuza.